quarta-feira, 30 de setembro de 2009
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Liberdade pelo autoconhecimento - J.Krishnamurti
Vamos, esta tarde, pintar um quadro verbal. As palavras não são importantes. Temos de as ouvir sem ficarmos presos ao seu significado superficial. É como olhar um quadro. Geralmente, queremos saber o nome do pintor, e começamos a interpretar, a fragmentar-analisando a construção, a profundidade, a luz, a cor, e pensamos ter muito cuidado, para não nos enredarmos nas palavras ou sermos enredados por elas. Porque, em geral, as nossas mentes são escravas das palavras. Aliás somos escravos, praticamente sob todos os aspectos. As palavras, em especial, têm uma enorme influência na nossa vida; estão carregadas de significado E não escutamos, ficamos incapazes de escutar, porque as palavras despertam uma variedade de símbolos e ideias, despertam medos, esperanças, angústias.
É importante escutar, realmente com uma mente livre que não esteja apenas a rejeitar ou a aceitar palavras, mas que tenha uma sensibilidade profunda, que seja capaz de ver, imediatamente, o que é verdadeiro e o que é falso, sem se basear no conhecimento acumulado. Porque o conhecimento acumulado nunca nos dá a percepção do verdadeiro. O que nos dá essa percepção profunda e livre é a liberdade total. É sobre isso que vamos falar esta tarde.
A palavra «liberdade» está pesadamente carregada - política, religiosa, socialmente, em todos os aspectos. É realmente uma palavra extraordinária, com significado e profundidade enormes; carregamo-la, como acontece com a palavra «amor», de variadíssimos significados - liberdade política, liberdade social, liberdade respeitante ao trabalho; liberdade em relação aos dogmas religiosos e ás crenças; «liberdade» para fugir ás responsabilidades imediatas, aos problemas, à ansiedade, aos medos. A mente quer libertar-se de muitas coisas. E então construímos uma estrutura verbal que nos dá uma aparência de liberdade, mas não sabemos o que significa ser verdadeiramente livre, sentir-se livre - que não é argumentar acerca da liberdade, defini-la, limitar-se a perguntar, « Que entende por liberdade?» Não sabemos, realmente, o que é senti-la, nem quando ela é necessária - não num determinado nível, mas totalmente.
Sem liberdade total*, toda a percepção, toda a visão objectiva fica deformada. Só o ser humano totalmente livre pode olhar e compreender imediatamente. *(liberdade psicológica) Estar livre implica, de facto, o total esvaziamento da mente, não é assim? Esvaziar por completo, a mente do seu conteúdo - essa é a verdadeira liberdade. Liberdade não é a mera revolta contra as circunstâncias, a qual, por sua vez cria outras circunstâncias, outras influências ambientais, escravizadoras da mente. A liberdade a que nos referimos é a liberdade que vem naturalmente, facilmente, de maneira espontânea, quando a mente é capaz de funcionar no seu nível mais alto.
Em geral , os nossos cérebros são indolentes. Estão obscurecidos, tornam-se embotados pela «educação», pela especialização, pelo conflito, por todas as formas de luta interior, psicológica, assim como pelas pressões externas. Os nossos cérebros só estão realmente activos quando há uma exigência imediata, uma crise premente. Fora disso, vivemos, num estado «hipnótico», uma vida monótona, funcionando indolentemente nos nossos empregos e ocupações; por isso, os nossos cérebros não são penetrantes, atentos, despertos, sensíveis, não estão activos ao nível da sua máxima capacidade.
Se o cérebro não funciona ao nível da sua máxima capacidade, não é capaz de ser livre. Porque a mente embotada, superficial, limitada, estreita, medíocre, só é capaz de mera reacção, em face do meio; e devido só ser capaz de reacção, torna-se escrava do mesmo meio. E daqui surge todo o problema de nos libertarmos do meio, e de não sermos escravos das várias influências, directrizes, pressões. Assim, o que é importante é sentirmo-nos real e totalmente livres.
Há duas espécies de liberdade: uma é a libertação de alguma coisa, que é uma reacção, e a outra - que não é uma reacção - é ser livre. Libertarmo-nos de alguma coisa é uma reacção, dependente da nossa escolha, do nosso carácter, do nosso temperamento, de várias formas de condicionamento. É como a reacção de um jovem revoltado contra a sociedade - ele quer ser livre. Ou a de marido que quer livrar-se da mulher; ou a mulher que quer livrar-se do marido; ou o nosso desejo de nos livrarmos da cólera, do ciúme, da inveja, do desespero. Tudo isso são reacções, respostas, a dadas circunstâncias, que impedem a pessoa de funcionar livremente, facilmente.
Queremos a libertação pessoal. E essa libertação é negada numa sociedade onde os costumes e as convenções , os hábitos, as tradições são tremendamente importantes. Daí, a revolta. Ou, então há a revolta contra a tirania, Há portanto, várias formas de revolta, de reacções a pressões imediatas. Isso, realmente, não é verdadeira liberdade, porque toda reacção gera outras reacções, que criam outras circunstâncias, às quais a mente de novo se escraviza. Há, assim, uma repetição constante da revolta: ser-se enredado pelas circunstâncias, revoltar-se contra essas circunstâncias, e assim por diante, interminavelmente.
Estamos a falar de uma liberdade que não é reacção. A mente que é livre não é escrava de coisa nenhuma, de circunstâncias nenhumas, de nenhuma rotina. Embora possa estar especializada no exercício de uma certa função, não é escrava disso, não fica presa nessa rotina; embora viva na sociedade, não pertence à sociedade. E a mente que constantemente se esvazia de todas as acumulações e reacções diárias - só essa mente é livre.
Vivemos pela acção. A acção é imperativa, é necessária. Há a acção nascida da ideia, e há a acção nascida da liberdade. Vamos investigar um problema que requer vivacidade do nosso cérebro, e não a nossa concordância ou discordância. A casa está em chamas, o mundo está em chamas, a arder, a destruir-se a si próprio; e a acção é indespensável. E essa acção não depende das ideias que cada um tem acerca do incêndio, do tamanho do balde a usar, do que cada um irá fazer. É preciso actuar, para extinguir o incêndio. E para o extinguir, não se podem ter ideias a respeito do incêndio: quem deitou à casa, qual a natureza do incêndio, etc.,não há que especular acerca do incêndio. Tem de haver acção imediata. O que significa que a mente precisa absolutamente de sofrer uma completa mutação.
O homem vive há um milhão setecentos e cinquenta mil anos, aproximadamente dois milhões de anos. Biologicamente acumulou muitas experiências, muito conhecimento, passou por muitas civilizações, por muitas pressões e tensões. Somos esse homem, quer o ignoremos quer não. Quer o reconheçamos quer não, somos o ser humano, somos o resultado de dois milhões de anos. E , ou continuamos a evoluir lentamente, passando, infinitamente, por sofrimentos, ansiedades e conflitos de toda a espécie, ou saltamos para fora dessa corrente, em qualquer altura, como quem salta de um barco para a margem do rio - podemos fazer isso em qualquer momento. Mas só a mente livre é capaz de o fazer.
A acção - que significa fazer, ser - se nasce de uma ideia, não é libertadora, não torna a mente livre. E quase todas as nossas acções nascem de fórmula, de um conceito; e assim, não são libertadoras, não trazem liberdade à mente. Se me é permitido sugerir-vos, não fiqueis apenas a escutar as palavras; observai as vossas mentes em funcionamento. Observai-vos a vós mesmos, e vede o que são as vossas acções, e em que é que elas se baseiam. Não se trata de concordar com o «orador» ou discordar dele. Ele está apenas a indicar o que está de facto a acontecer, o que de facto é. Se cada um não observar o que existe em si mesmo, e só ouvir as palavras, então sairá daqui levando apenas cinzas, sairá vazio, sem nada; terá perdido uma hora, uma hora de um belo entardecer.
Precisamos de observar, de observar o funcionamento da nossa própria mente. E isso é extremamente árduo, porque não se está acostumado a observar a actividade do pensamento. Cada um precisa observar o funcionamento da sua mente - sem a guiar, sem a moldar, sem lhe dizer o que deve pensar ou não pensar; observar, apenas, as reacções do cérebro quando ouve as palavras, quando ouve corvos, quando vê as árvores, a luz da tarde, as folhas agitadas pela brisa, a forma de um ramo ou um tronco escuro destacando-se no céu da tarde - apenas temos de observar tudo isso. Quando observamos assim, o cérebro fica vivificado. Mas quando dirigimos essa observação - o que ele deve fazer e o que não deve fazer - então estamos a reagir e a tornar o cérebro embotado e entorpecido.
Para compreender o que é a liberdade e a verdadeira acção, temos de compreender todo o processo do nosso próprio pensamento; isto é, temos de conhecer-nos a nós mesmos. E isso é uma das mais difíceis tarefas que podemos empreender. Porque conhecer-se a si mesmo requer uma mente capaz de olhar-se, sem o conhecimento previamente adquirido. Se nos olharmos com o conhecimento acumulámos, então estamos apenas a projectar ou a traduzir o que vemos, de acordo com o passado e, portanto, não estamos a olhar-nos. Assim olhar-nos a nós mesmos requer uma mente fresca, nova a cada momento. E é aqui que surge a dificuldade. Compreendei isto, por favor. Porque se não compreenderdes o que se está a dizer agora, então, quando examinarmos o problema da liberdade, não sereis capazes de o «agarrar» e de o investigar.
Estamos a falar do ser humano total, no aspecto da psique, da actividade interior, da qualidade do cérebro e da mente. O cérebro faz parte da mente, e a mente é também a psique; a totalidade é a mente. Cada um tem de compreender o funcionamento deste todo - de si mesmo.
Há o «conhecimento» de si mesmo e há o conhecer-se a si mesmo. Se se trata de «conhecimento», trata-se de um mero processo aditivo. Isto é, podemos adicionar-lhe mais conhecimentos por meio da experiência, por meio do exame e da exploração posteriores; e acrescentemos o que vamos descobrindo àquilo que já sabemos. Toda a experiência é traduzida de acordo com o que já se conhece; e a experiência é o desafio, é a resposta a esse desafio. Porque, em cada minuto da nossa consciência, em estado de vigília ou de sono, estamos a ter esse desafio. Quando lhe respondemos adequadamente, de modo total, completo, a resposta não cria conflito e portanto e cérebro mantém - se extremamente activo. Mas quando respondemos ao desafio de acordo com o nosso condicionamento, os nossos conhecimentos, as nossas experiências anteriores, essa resposta cria conflito - há conflito entre o desafio e a resposta.
Se nos observamos a nós mesmos, veremos que quase todos respondemos de acordo com os nossos conhecimentos, a nossa experiência, o nosso condicionamento, como hindu, como budista, como cristão, como comunista, como técnico, como pai de família. Em cada caso, a pessoa adquiriu muita experiência, e reage com toda essa carga de experiência acumulada. E é com todo esse conhecimento acumulado que a pessoa se olha a si mesma. E então diz, «Isto é bom, isto é mau; devo conservar isto, devo rejeitar aquilo». quando faz isso não está olhar-se a si mesma; está só a projectar os seus conhecimentos naquilo que vê e a traduzir ou a interpretar o que vê, de acordo com a sua experiência, os seus conhecimentos, o seu condicionamento.
Observai isto em vós mesmos, por favor. A mente que responde a um desafio com o conhecimento anteriormente adquirido não está a aprender; está apenas a adicionar ao que já conhece. A mente que aprende, ou se encontra num estado de aprender, está sempre num estado de observação. Penso que estas duas coisas devem ficar bem claras para cada um. Porque aprender é inteiramente diferente de adquirir conhecimentos. O aprender exige que o cérebro funcione no seu nível mais elevado. Mas não se pode aprender, se se quer consegui-lo com uma mente aquisitiva, uma mente que diz, «Vou juntar mais ao que já conheço».
A mente que anda em busca de experiências e as acumula nunca se encontra em estado de aprender. É muito importante compreender isto. Porque aquilo a que se chama o «eu», o «ego» , está sempre em movimento; nunca é estático. Cada pensamento, cada sentimento que já conhecemos, quando o observamos com esse conhecimento adquirido, fica reduzido a um estado estático. Vou explicar isso um pouco mais.
Como sabeis, temos muitas maneiras de sentir. Ao verdes a beleza de um poente, podeis ter imediatamente uma certa reacção. Não sei se já alguma vez olhastes um poente. Ponho em dúvida que o tenhais olhado realmente ou que tenhais, de facto, observado uma árvore. O ramo de uma árvore, a beleza da luz, a frescura das folhas, o movimento de uma folha na aragem - já alguma vez observastes isso? Neste país, a beleza desapareceu. Foi destruída a sensibilidade à beleza, porque os vossos «santos» têm dito que não se deve olhar a beleza. Para vós, a beleza está identificada com o desejo, o desejo de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem, têm-vos dito, há milhares de anos, que não deveis ter desejo. E com o esforço para não se ter desejo, destruiu-se a sensibilidade à beleza, a possibilidade de se sentir encantamento, ao ver-se uma coisa verdadeiramente bela.
Observai-vos por favor. Vede como nossas mentes se tornaram insensíveis. quando sentis prazer, dor uma alegria espontânea por causa de alguma coisa, no momento em que sentis isso, há uma reacção que consiste em dar nome a esse sentimento, no mesmo instante. Vede isto, por favor, observai-o em vós mesmos. Porque se não derdes atenção a tudo isto, quando eu falar sobre a liberdade, não encontrareis nisso qualquer significado. Estou a falar da mente que não dá nome. Quando se tem um sentimento o fixar, como experiência, na memória; e então, no dia seguinte, essa lembrança, que se tornou mecânica, deseja a repetição dessa experiência. Portanto, quando no dia seguinte olhardes o poente, isso já não tem a qualidade daquilo para que olhaste espontaneamente no primeiro dia. Assim, o processo de atribuir um nome a qualquer sentimento, a qualquer observação, impede-nos de olhar.
Já olhastes realmente uma flor? Pode-se olhar uma flor de dois modos: botanicamente ou não botanicamente. Quando olhamos uma flor sob o aspecto botânico, conhecemo-lhe a espécie, a cor, a variedade, conhecemos o que ela é; quando essa interpretação interfere, estamos a observá-la botanicamente; e quando isso acontece, não podemos ver a flor. Observai isto, por favor. Quando dizeis, «É uma rosa. É muito bela», já deixaste de a olhar. Porque identificaste essa rosa com uma coisa a que já tenheis chamado «rosa», e essa identificação com o passado impede-vos de olhar a rosa real que tendes à frente.
Do mesmo modo, se quando vos olhais a vós mesmos, identificais um determinado sentimento, um determinado estado ou uma certa experiência, dando-lhe um nome, identificais-vos com esse sentimento através de um nome que vem da memória, que vem do passado, e ficais portanto incapazes de olhar, de observar, de escutar, de compreender esse sentimento.
E, assim, essa identificação, esse dar nome, esse símbolo que se tornou tão extremamente importante nas nossas vidas, impede-nos de olhar, de sentir mais profundamente, de sentir completamente.
Vejamos o caso de um desses homens a quem chamam «sannyasis». Ele é um símbolo da renúncia ao mundo. O símbolo, o aspecto exterior é que as pessoas respeitam. Para elas, o aspecto exterior é de extraordinária significação; não importa o que esse homem é interiormente. Ele está a ser torturado pelas suas aspirações, pelas suas exigências sexuais, pelas suas complexas lembranças, pelo desejo de se igualar a alguém; esse constante processo de imitação existe nele, e portanto, também, a luta, o conflito, o recalcamento, o controlo, a repressão. Isso não interessa ás pessoas; o que lhes interessa é o símbolo. Do mesmo modo, o nome, a palavra tornou-se um símbolo que nos impede de olhar as coisas com profundidade.
Cada um tem, pois, de estar extremamente vigilante quando se observa a si mesmo.Porque sem se conhecer não pode viver, é um ente morto. Fala-se constantemente de certos livros, lêem-se e repetem-se interminavelmente esses livros - o Guitá, os Upanishads ou qualquer outro livro sem sentido. Compreendeis? Eu disse «qualquer outro livro sem sentido», porque no momento em que repetimos deixámos de o compreender, dissociámo-lo do nosso viver quotidiano real. O que tem importância não é o livro, mas o nosso viver quotidiano, os sentimentos, as ansiedades, as aflições de cada dia e o modo como pensamos. Isso é que temos de conhecer, porque se o não conhecemos, não temos base para nenhum pensamento sensato, para nenhum procedimento racional; e então funcionamos de modo meramente mecânico, ou neuroticamente.
Conhecer-se a si mesmo é a mais árdua tarefa em que cada um se pode empenhar. Podemos ir à lua, fazer tudo o que é possível fazer na vida; mas se não nos conhecermos seremos vazios, embotados, sem inteligência; ainda que exerçamos as funções de primeiro-ministro, de engenheiro altamente qualificado ou de técnico habilíssimo, estamos apenas a funcionar mecanicamente. Assim, precisamos de sentir a importância de nos conhecermos a nós mesmos, a seriedade que isso implica. Não se trata do que outras pessoas tenham dito que somos - o «eu superior», ou o «eu inferior» - esqueçamos tudo o que outros disseram, e observemos as nossas próprias mentes e os nossos corações para, a partir daí, podemos viver.
Conhecer-se a si mesmo, (estar a) conhecer-se, é o presente activo; e o que já aprendemos, o que conhecemos, é o passado. O passado não deve dirigir o presente activo. Quando o faz, cria-se mais conflito. Mas também não se pode rejeitar o passado; ele existe tanto no inconsciente como no consciente. E precisamos do conhecimento. Seria absurdo um cientista pôr de lado todas as coisas que aprendeu, que a ciência acumulou ao longo de séculos, seria absurdo um artista deitar fora o seu conhecimento da preparação e mistura das cores, etc... Mas não deixar o passado interferir no presente activo - isso é que precisamos compreender.
Cada um tem de olhar com um olhar atento, com uma sensibilidade, uma mente, um cérebro intensamente activos. E o cérebro deixa de estar intensamente activo, no momento a que se dá nome ao que se está a observar, no momento em que se lhe atribui um símbolo. O homem que se está a estudar a si mesmo, que se está a observar, não está a interpretar, não está a comparar, está apenas a observar. É por isso que digo: quando observais uma flor, observai-a, apenas. Escutai aqueles corvos que estão a crocitar antes de irem dormir, escutai simplesmente, sem resistência, sem qualquer desejo de escutar o «orador» e de resistir ao barulho dos corvos; escutai tudo. Então graças a esse escutar, sereis capazes de dar atenção ao que desejais ouvir. Mas se resisitirdes ai barulho dos corvos, ficareis em conflito. E, assim, não tereis energia para escutar.
Observai-vos portanto, a vós mesmos. Essa observação é absolutamente necessária, porque, se não nos conhecermos a nós mesmos, não se revelará o que verdadeiramente somos. Os políticos, os «gurus», os intérpretes tornam as pessoas insinceras, porque essa influência não as deixa conhecer os seus próprios pensamentos, o que realmente são. Só quando nos conhecemos, somos capazes de funcionar como ser total, e não de modo fragmentário.
Assim conhecer-se a si mesmo é observar-se. E para cada um se observar, tem de haver liberdade, que não seja uma reacção. Tendes de observar, de escutar livremente aqueles corvos, não estareis escutando quem vos está a falar. Vede, por favor, a importância disto: no observar, no olhar para vós mesmos, toda a forma de resistência, como o dar nome - o que significa o passado actuar sobre o presente - destrói, impede a observação.
Assim, por meio da observação estamos a aprender a aprender constantemente. E, para aprender, precisamos de uma profunda sensibilidade, de um cérebro que funcione inteiramente no seu nível mais elevado. Quando o cérebro funciona nesse nível, não há tempo para dar nome ao que se está a observar; há então acção imediata - é disso que vamos tratar.
Para quase todos nós, a acção deriva de uma ideia, de uma formula, de um conceito, de um ideal. Temos um ideal e tentamos aproximar dele a nossa acção, para nos ajustarmos ao ideal. Vede o que tem acontecido neste país - tudo isso provavelmente vos é muito familiar. Tendes pregado, praticado e proclamado a não-violência. Agora, é a violência que está na moda. Esqueceu-se tudo o que tem sido dito sobre a não-violência. Tem-se agora o exército, o serviço militar, o recrutamento de todos os estudantes - sabeis o que se passa. E aceitais tudo isso com a mesma facilidade com que aceitais a não violência porque vos convinha; agora aceitais com a mesma facilidade a violência porque vos convém. Por isso o vosso ideal da não-violência não tem nenhum significado.
E todos os nossos ideais, por mais sublimes, sedutores e belos que seja, nada significam. Porque criam conflito entre o que é e «o que deveria ser» .O importante é o que é e não «o que deveria ser». Compreendei, o que é importante é o que é. As pessoas são violentas, cruéis, rancorosas, têm aversões e protegem a sua «segurança», a qualquer preço - o facto é este e não a sua não-violência, «ahimsa» - o que é perfeitamente absurdo.
Quando a pessoa observa o que é, sem o ideal - que é um afastamento de o que é, um modo de fugir de o que é - então, ou diz, «Bem, aceito o que é, para viver com isso», ou a pessoa tem uma acção directa sobre esse facto; ou , ainda, é o facto que tem uma acção directa sobre a pessoa. O importante é ser-se capaz de observar realmente o que é - quer se sinta cólera, desejo ou avidez disto ou daquilo, etc. Sabemos o que os seres humanos são interiormente. Observar tudo isso, sem lhe dar nome, sem dizer, «Estou irritado, não devo estar irritado», mas apenas observar o facto; saber o que ele significa, a profundidade, o extraordinário sentimento que está por trás de todos esses movimentos subtis, secretos. Se observarmos assim, veremos que devido a essa observação, há liberdade, e devido a essa Liberdade, há acção imediata.
Porque acção significa acção no presente activo. E o não«amanhã». Acção quer dizer presente activo. E o presente activo só pode actuar no presente, quando não existe todo o imenso fardo do medo, do sentimento de culpa, da ansiedade. É pois muito importante compreender a totalidade da psique, a totalidade da nossa consciência. Como já antes apontei, esta tarde, quando se observa, pode-se ver que a mente - não só o cérebro, mas a toltalidade da mente - se esvazia.
Sabeis o que é o espaço? Há espaço - distância - entre vós e a árvore, há espaço entre vós e o corvo, e o barulho que ele está a fazer, há espaço entre vós e as estrelas - espaço, distância, que envolve tempo. Ora quando vos observais a vós mesmos, é preciso haver «espaço» entre» vós e o que observais: geralmente não temos esse espaço; enchemo-lo por completo com as nossas opiniões, os nossos juízos. Mas é preciso haver espaço. A mente tem de ter espaço dentro de si mesma. Só nesse espaço no interior da mente pode haver uma mutação, pode nascer uma coisa nova. Esse espaço na mente existe, de facto quando ela é inocente.
A mente inocente tem espaço, como a criança no ventre materno. Mas a mente que está completamente cheia, que está entorpecida pelo seus desesperos, pelos seus medos, alegrias, prazeres - essa mente nunca está vazia; e por isso para ela nada existe que seja novo, nada que seja novo pode surgir. Só nesse vazio pode ter lugar uma coisa nova, uma mutação. Esse vazio, esse espaço é liberdade. E para que exista esse espaço, temos de compreender toda a estrutura, consciente e inconsciente, de nós mesmos.
Quase todos vivemos, no nível consciente, de modo muito superficial, porque geralmente nos preenchemos com os nossos empregos, com a família, com as nossas necessidades imediatas. Vivemos na superfície. A sociedade, a «educação» que recebemos, o mundo - todos exigem que se viva na superfície. E por baixo dela atingindo grande profundidade, estão as nossas tradições, as nossas esperanças, os nossos medos, os nossos deuses. Toda a existência obscura do ser de cada um está ali - e cada um tem também de compreender isso. Assim, quando a mente deseja compreender o inconsciente , a parte consciente tem de estar quieta, por algum tempo ou durante o tempo todo; e só então o inconsciente começa a contar a sua história. Para se compreender o inconsciente , ou se adopta o processo de o analisar, indefinidamente, ou se atravessa, num momento, o inconsciente. É o que fazemos quando percebemos imediatamente, sem lhe dar nome, toda a actividade de nós mesmos.
A liberdade, pois, não é uma reacção - é um estado de ser. É um sentir. Cada um tem de libertar-se, tem de ser livre, mesmo nas pequenas coisas - o domínio do marido sobre a mulher, ou da mulher sobre o marido, as ambições, avidez, a inveja. Quando cada um passa, num momento, através de tudo isso, sem se dar tempo para argumentar, então verá que observar, apenas, sem analise, sem «pesquisas» introspectivas, observar - ver as coisas com o são, sem autocompaixão, sem desejo de mudar, observar, apenas - é ter aquele espaço.
E no momento em que há aquele espaço intocado pela sociedade, então, nesse estado, acontece uma mutação. E precisamos de uma mutação neste mundo, porque é dessa mutação que nasce o *indivíduo. E só o indivíduo pode fazer alguma neste mundo, para dar origem a uma revolução total, uma mudança, uma transformação completa. O que é necessário neste mundo, presentemente, é o indivíduo que nasce daquele vazio.
Já ouvistes um tambor a ser percurtido repetidamente? o homem que o toca pode produzir qualquer som, e esse som é claro, exacto, vivo, penetrante, porque o tambor está vazio. Se estivesse cheio, não poderia produzir um som claro, nítido, belo.
Do mesmo modo, quando, quando a mente tem espaço, tem essa extraordinária qualidade do vazio, então, nesse estado, ela actua; e a sua acção é fruto da mutação total. Só essa mente pode compreender o que está para além dela.
16 de Fevereiro de 1964
*Noutras obras, Krishnamurti faz notar que o indivíduo (aquele que não está dividido, fragmentado) é o ser humano que sente e vive a vida como um todo. Daí um sentido de «responsabilidade total pela humanidade inteira - responsabilidade que é amor. só ela pode transformar radicalmente o estado da sociedade» ( Letters to the Schools, pags. 25 .Ed Krishnamurti Foundation, england,1981).
É importante escutar, realmente com uma mente livre que não esteja apenas a rejeitar ou a aceitar palavras, mas que tenha uma sensibilidade profunda, que seja capaz de ver, imediatamente, o que é verdadeiro e o que é falso, sem se basear no conhecimento acumulado. Porque o conhecimento acumulado nunca nos dá a percepção do verdadeiro. O que nos dá essa percepção profunda e livre é a liberdade total. É sobre isso que vamos falar esta tarde.
A palavra «liberdade» está pesadamente carregada - política, religiosa, socialmente, em todos os aspectos. É realmente uma palavra extraordinária, com significado e profundidade enormes; carregamo-la, como acontece com a palavra «amor», de variadíssimos significados - liberdade política, liberdade social, liberdade respeitante ao trabalho; liberdade em relação aos dogmas religiosos e ás crenças; «liberdade» para fugir ás responsabilidades imediatas, aos problemas, à ansiedade, aos medos. A mente quer libertar-se de muitas coisas. E então construímos uma estrutura verbal que nos dá uma aparência de liberdade, mas não sabemos o que significa ser verdadeiramente livre, sentir-se livre - que não é argumentar acerca da liberdade, defini-la, limitar-se a perguntar, « Que entende por liberdade?» Não sabemos, realmente, o que é senti-la, nem quando ela é necessária - não num determinado nível, mas totalmente.
Sem liberdade total*, toda a percepção, toda a visão objectiva fica deformada. Só o ser humano totalmente livre pode olhar e compreender imediatamente. *(liberdade psicológica) Estar livre implica, de facto, o total esvaziamento da mente, não é assim? Esvaziar por completo, a mente do seu conteúdo - essa é a verdadeira liberdade. Liberdade não é a mera revolta contra as circunstâncias, a qual, por sua vez cria outras circunstâncias, outras influências ambientais, escravizadoras da mente. A liberdade a que nos referimos é a liberdade que vem naturalmente, facilmente, de maneira espontânea, quando a mente é capaz de funcionar no seu nível mais alto.
Em geral , os nossos cérebros são indolentes. Estão obscurecidos, tornam-se embotados pela «educação», pela especialização, pelo conflito, por todas as formas de luta interior, psicológica, assim como pelas pressões externas. Os nossos cérebros só estão realmente activos quando há uma exigência imediata, uma crise premente. Fora disso, vivemos, num estado «hipnótico», uma vida monótona, funcionando indolentemente nos nossos empregos e ocupações; por isso, os nossos cérebros não são penetrantes, atentos, despertos, sensíveis, não estão activos ao nível da sua máxima capacidade.
Se o cérebro não funciona ao nível da sua máxima capacidade, não é capaz de ser livre. Porque a mente embotada, superficial, limitada, estreita, medíocre, só é capaz de mera reacção, em face do meio; e devido só ser capaz de reacção, torna-se escrava do mesmo meio. E daqui surge todo o problema de nos libertarmos do meio, e de não sermos escravos das várias influências, directrizes, pressões. Assim, o que é importante é sentirmo-nos real e totalmente livres.
Há duas espécies de liberdade: uma é a libertação de alguma coisa, que é uma reacção, e a outra - que não é uma reacção - é ser livre. Libertarmo-nos de alguma coisa é uma reacção, dependente da nossa escolha, do nosso carácter, do nosso temperamento, de várias formas de condicionamento. É como a reacção de um jovem revoltado contra a sociedade - ele quer ser livre. Ou a de marido que quer livrar-se da mulher; ou a mulher que quer livrar-se do marido; ou o nosso desejo de nos livrarmos da cólera, do ciúme, da inveja, do desespero. Tudo isso são reacções, respostas, a dadas circunstâncias, que impedem a pessoa de funcionar livremente, facilmente.
Queremos a libertação pessoal. E essa libertação é negada numa sociedade onde os costumes e as convenções , os hábitos, as tradições são tremendamente importantes. Daí, a revolta. Ou, então há a revolta contra a tirania, Há portanto, várias formas de revolta, de reacções a pressões imediatas. Isso, realmente, não é verdadeira liberdade, porque toda reacção gera outras reacções, que criam outras circunstâncias, às quais a mente de novo se escraviza. Há, assim, uma repetição constante da revolta: ser-se enredado pelas circunstâncias, revoltar-se contra essas circunstâncias, e assim por diante, interminavelmente.
Estamos a falar de uma liberdade que não é reacção. A mente que é livre não é escrava de coisa nenhuma, de circunstâncias nenhumas, de nenhuma rotina. Embora possa estar especializada no exercício de uma certa função, não é escrava disso, não fica presa nessa rotina; embora viva na sociedade, não pertence à sociedade. E a mente que constantemente se esvazia de todas as acumulações e reacções diárias - só essa mente é livre.
Vivemos pela acção. A acção é imperativa, é necessária. Há a acção nascida da ideia, e há a acção nascida da liberdade. Vamos investigar um problema que requer vivacidade do nosso cérebro, e não a nossa concordância ou discordância. A casa está em chamas, o mundo está em chamas, a arder, a destruir-se a si próprio; e a acção é indespensável. E essa acção não depende das ideias que cada um tem acerca do incêndio, do tamanho do balde a usar, do que cada um irá fazer. É preciso actuar, para extinguir o incêndio. E para o extinguir, não se podem ter ideias a respeito do incêndio: quem deitou à casa, qual a natureza do incêndio, etc.,não há que especular acerca do incêndio. Tem de haver acção imediata. O que significa que a mente precisa absolutamente de sofrer uma completa mutação.
O homem vive há um milhão setecentos e cinquenta mil anos, aproximadamente dois milhões de anos. Biologicamente acumulou muitas experiências, muito conhecimento, passou por muitas civilizações, por muitas pressões e tensões. Somos esse homem, quer o ignoremos quer não. Quer o reconheçamos quer não, somos o ser humano, somos o resultado de dois milhões de anos. E , ou continuamos a evoluir lentamente, passando, infinitamente, por sofrimentos, ansiedades e conflitos de toda a espécie, ou saltamos para fora dessa corrente, em qualquer altura, como quem salta de um barco para a margem do rio - podemos fazer isso em qualquer momento. Mas só a mente livre é capaz de o fazer.
A acção - que significa fazer, ser - se nasce de uma ideia, não é libertadora, não torna a mente livre. E quase todas as nossas acções nascem de fórmula, de um conceito; e assim, não são libertadoras, não trazem liberdade à mente. Se me é permitido sugerir-vos, não fiqueis apenas a escutar as palavras; observai as vossas mentes em funcionamento. Observai-vos a vós mesmos, e vede o que são as vossas acções, e em que é que elas se baseiam. Não se trata de concordar com o «orador» ou discordar dele. Ele está apenas a indicar o que está de facto a acontecer, o que de facto é. Se cada um não observar o que existe em si mesmo, e só ouvir as palavras, então sairá daqui levando apenas cinzas, sairá vazio, sem nada; terá perdido uma hora, uma hora de um belo entardecer.
Precisamos de observar, de observar o funcionamento da nossa própria mente. E isso é extremamente árduo, porque não se está acostumado a observar a actividade do pensamento. Cada um precisa observar o funcionamento da sua mente - sem a guiar, sem a moldar, sem lhe dizer o que deve pensar ou não pensar; observar, apenas, as reacções do cérebro quando ouve as palavras, quando ouve corvos, quando vê as árvores, a luz da tarde, as folhas agitadas pela brisa, a forma de um ramo ou um tronco escuro destacando-se no céu da tarde - apenas temos de observar tudo isso. Quando observamos assim, o cérebro fica vivificado. Mas quando dirigimos essa observação - o que ele deve fazer e o que não deve fazer - então estamos a reagir e a tornar o cérebro embotado e entorpecido.
Para compreender o que é a liberdade e a verdadeira acção, temos de compreender todo o processo do nosso próprio pensamento; isto é, temos de conhecer-nos a nós mesmos. E isso é uma das mais difíceis tarefas que podemos empreender. Porque conhecer-se a si mesmo requer uma mente capaz de olhar-se, sem o conhecimento previamente adquirido. Se nos olharmos com o conhecimento acumulámos, então estamos apenas a projectar ou a traduzir o que vemos, de acordo com o passado e, portanto, não estamos a olhar-nos. Assim olhar-nos a nós mesmos requer uma mente fresca, nova a cada momento. E é aqui que surge a dificuldade. Compreendei isto, por favor. Porque se não compreenderdes o que se está a dizer agora, então, quando examinarmos o problema da liberdade, não sereis capazes de o «agarrar» e de o investigar.
Estamos a falar do ser humano total, no aspecto da psique, da actividade interior, da qualidade do cérebro e da mente. O cérebro faz parte da mente, e a mente é também a psique; a totalidade é a mente. Cada um tem de compreender o funcionamento deste todo - de si mesmo.
Há o «conhecimento» de si mesmo e há o conhecer-se a si mesmo. Se se trata de «conhecimento», trata-se de um mero processo aditivo. Isto é, podemos adicionar-lhe mais conhecimentos por meio da experiência, por meio do exame e da exploração posteriores; e acrescentemos o que vamos descobrindo àquilo que já sabemos. Toda a experiência é traduzida de acordo com o que já se conhece; e a experiência é o desafio, é a resposta a esse desafio. Porque, em cada minuto da nossa consciência, em estado de vigília ou de sono, estamos a ter esse desafio. Quando lhe respondemos adequadamente, de modo total, completo, a resposta não cria conflito e portanto e cérebro mantém - se extremamente activo. Mas quando respondemos ao desafio de acordo com o nosso condicionamento, os nossos conhecimentos, as nossas experiências anteriores, essa resposta cria conflito - há conflito entre o desafio e a resposta.
Se nos observamos a nós mesmos, veremos que quase todos respondemos de acordo com os nossos conhecimentos, a nossa experiência, o nosso condicionamento, como hindu, como budista, como cristão, como comunista, como técnico, como pai de família. Em cada caso, a pessoa adquiriu muita experiência, e reage com toda essa carga de experiência acumulada. E é com todo esse conhecimento acumulado que a pessoa se olha a si mesma. E então diz, «Isto é bom, isto é mau; devo conservar isto, devo rejeitar aquilo». quando faz isso não está olhar-se a si mesma; está só a projectar os seus conhecimentos naquilo que vê e a traduzir ou a interpretar o que vê, de acordo com a sua experiência, os seus conhecimentos, o seu condicionamento.
Observai isto em vós mesmos, por favor. A mente que responde a um desafio com o conhecimento anteriormente adquirido não está a aprender; está apenas a adicionar ao que já conhece. A mente que aprende, ou se encontra num estado de aprender, está sempre num estado de observação. Penso que estas duas coisas devem ficar bem claras para cada um. Porque aprender é inteiramente diferente de adquirir conhecimentos. O aprender exige que o cérebro funcione no seu nível mais elevado. Mas não se pode aprender, se se quer consegui-lo com uma mente aquisitiva, uma mente que diz, «Vou juntar mais ao que já conheço».
A mente que anda em busca de experiências e as acumula nunca se encontra em estado de aprender. É muito importante compreender isto. Porque aquilo a que se chama o «eu», o «ego» , está sempre em movimento; nunca é estático. Cada pensamento, cada sentimento que já conhecemos, quando o observamos com esse conhecimento adquirido, fica reduzido a um estado estático. Vou explicar isso um pouco mais.
Como sabeis, temos muitas maneiras de sentir. Ao verdes a beleza de um poente, podeis ter imediatamente uma certa reacção. Não sei se já alguma vez olhastes um poente. Ponho em dúvida que o tenhais olhado realmente ou que tenhais, de facto, observado uma árvore. O ramo de uma árvore, a beleza da luz, a frescura das folhas, o movimento de uma folha na aragem - já alguma vez observastes isso? Neste país, a beleza desapareceu. Foi destruída a sensibilidade à beleza, porque os vossos «santos» têm dito que não se deve olhar a beleza. Para vós, a beleza está identificada com o desejo, o desejo de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem, têm-vos dito, há milhares de anos, que não deveis ter desejo. E com o esforço para não se ter desejo, destruiu-se a sensibilidade à beleza, a possibilidade de se sentir encantamento, ao ver-se uma coisa verdadeiramente bela.
Observai-vos por favor. Vede como nossas mentes se tornaram insensíveis. quando sentis prazer, dor uma alegria espontânea por causa de alguma coisa, no momento em que sentis isso, há uma reacção que consiste em dar nome a esse sentimento, no mesmo instante. Vede isto, por favor, observai-o em vós mesmos. Porque se não derdes atenção a tudo isto, quando eu falar sobre a liberdade, não encontrareis nisso qualquer significado. Estou a falar da mente que não dá nome. Quando se tem um sentimento o fixar, como experiência, na memória; e então, no dia seguinte, essa lembrança, que se tornou mecânica, deseja a repetição dessa experiência. Portanto, quando no dia seguinte olhardes o poente, isso já não tem a qualidade daquilo para que olhaste espontaneamente no primeiro dia. Assim, o processo de atribuir um nome a qualquer sentimento, a qualquer observação, impede-nos de olhar.
Já olhastes realmente uma flor? Pode-se olhar uma flor de dois modos: botanicamente ou não botanicamente. Quando olhamos uma flor sob o aspecto botânico, conhecemo-lhe a espécie, a cor, a variedade, conhecemos o que ela é; quando essa interpretação interfere, estamos a observá-la botanicamente; e quando isso acontece, não podemos ver a flor. Observai isto, por favor. Quando dizeis, «É uma rosa. É muito bela», já deixaste de a olhar. Porque identificaste essa rosa com uma coisa a que já tenheis chamado «rosa», e essa identificação com o passado impede-vos de olhar a rosa real que tendes à frente.
Do mesmo modo, se quando vos olhais a vós mesmos, identificais um determinado sentimento, um determinado estado ou uma certa experiência, dando-lhe um nome, identificais-vos com esse sentimento através de um nome que vem da memória, que vem do passado, e ficais portanto incapazes de olhar, de observar, de escutar, de compreender esse sentimento.
E, assim, essa identificação, esse dar nome, esse símbolo que se tornou tão extremamente importante nas nossas vidas, impede-nos de olhar, de sentir mais profundamente, de sentir completamente.
Vejamos o caso de um desses homens a quem chamam «sannyasis». Ele é um símbolo da renúncia ao mundo. O símbolo, o aspecto exterior é que as pessoas respeitam. Para elas, o aspecto exterior é de extraordinária significação; não importa o que esse homem é interiormente. Ele está a ser torturado pelas suas aspirações, pelas suas exigências sexuais, pelas suas complexas lembranças, pelo desejo de se igualar a alguém; esse constante processo de imitação existe nele, e portanto, também, a luta, o conflito, o recalcamento, o controlo, a repressão. Isso não interessa ás pessoas; o que lhes interessa é o símbolo. Do mesmo modo, o nome, a palavra tornou-se um símbolo que nos impede de olhar as coisas com profundidade.
Cada um tem, pois, de estar extremamente vigilante quando se observa a si mesmo.Porque sem se conhecer não pode viver, é um ente morto. Fala-se constantemente de certos livros, lêem-se e repetem-se interminavelmente esses livros - o Guitá, os Upanishads ou qualquer outro livro sem sentido. Compreendeis? Eu disse «qualquer outro livro sem sentido», porque no momento em que repetimos deixámos de o compreender, dissociámo-lo do nosso viver quotidiano real. O que tem importância não é o livro, mas o nosso viver quotidiano, os sentimentos, as ansiedades, as aflições de cada dia e o modo como pensamos. Isso é que temos de conhecer, porque se o não conhecemos, não temos base para nenhum pensamento sensato, para nenhum procedimento racional; e então funcionamos de modo meramente mecânico, ou neuroticamente.
Conhecer-se a si mesmo é a mais árdua tarefa em que cada um se pode empenhar. Podemos ir à lua, fazer tudo o que é possível fazer na vida; mas se não nos conhecermos seremos vazios, embotados, sem inteligência; ainda que exerçamos as funções de primeiro-ministro, de engenheiro altamente qualificado ou de técnico habilíssimo, estamos apenas a funcionar mecanicamente. Assim, precisamos de sentir a importância de nos conhecermos a nós mesmos, a seriedade que isso implica. Não se trata do que outras pessoas tenham dito que somos - o «eu superior», ou o «eu inferior» - esqueçamos tudo o que outros disseram, e observemos as nossas próprias mentes e os nossos corações para, a partir daí, podemos viver.
Conhecer-se a si mesmo, (estar a) conhecer-se, é o presente activo; e o que já aprendemos, o que conhecemos, é o passado. O passado não deve dirigir o presente activo. Quando o faz, cria-se mais conflito. Mas também não se pode rejeitar o passado; ele existe tanto no inconsciente como no consciente. E precisamos do conhecimento. Seria absurdo um cientista pôr de lado todas as coisas que aprendeu, que a ciência acumulou ao longo de séculos, seria absurdo um artista deitar fora o seu conhecimento da preparação e mistura das cores, etc... Mas não deixar o passado interferir no presente activo - isso é que precisamos compreender.
Cada um tem de olhar com um olhar atento, com uma sensibilidade, uma mente, um cérebro intensamente activos. E o cérebro deixa de estar intensamente activo, no momento a que se dá nome ao que se está a observar, no momento em que se lhe atribui um símbolo. O homem que se está a estudar a si mesmo, que se está a observar, não está a interpretar, não está a comparar, está apenas a observar. É por isso que digo: quando observais uma flor, observai-a, apenas. Escutai aqueles corvos que estão a crocitar antes de irem dormir, escutai simplesmente, sem resistência, sem qualquer desejo de escutar o «orador» e de resistir ao barulho dos corvos; escutai tudo. Então graças a esse escutar, sereis capazes de dar atenção ao que desejais ouvir. Mas se resisitirdes ai barulho dos corvos, ficareis em conflito. E, assim, não tereis energia para escutar.
Observai-vos portanto, a vós mesmos. Essa observação é absolutamente necessária, porque, se não nos conhecermos a nós mesmos, não se revelará o que verdadeiramente somos. Os políticos, os «gurus», os intérpretes tornam as pessoas insinceras, porque essa influência não as deixa conhecer os seus próprios pensamentos, o que realmente são. Só quando nos conhecemos, somos capazes de funcionar como ser total, e não de modo fragmentário.
Assim conhecer-se a si mesmo é observar-se. E para cada um se observar, tem de haver liberdade, que não seja uma reacção. Tendes de observar, de escutar livremente aqueles corvos, não estareis escutando quem vos está a falar. Vede, por favor, a importância disto: no observar, no olhar para vós mesmos, toda a forma de resistência, como o dar nome - o que significa o passado actuar sobre o presente - destrói, impede a observação.
Assim, por meio da observação estamos a aprender a aprender constantemente. E, para aprender, precisamos de uma profunda sensibilidade, de um cérebro que funcione inteiramente no seu nível mais elevado. Quando o cérebro funciona nesse nível, não há tempo para dar nome ao que se está a observar; há então acção imediata - é disso que vamos tratar.
Para quase todos nós, a acção deriva de uma ideia, de uma formula, de um conceito, de um ideal. Temos um ideal e tentamos aproximar dele a nossa acção, para nos ajustarmos ao ideal. Vede o que tem acontecido neste país - tudo isso provavelmente vos é muito familiar. Tendes pregado, praticado e proclamado a não-violência. Agora, é a violência que está na moda. Esqueceu-se tudo o que tem sido dito sobre a não-violência. Tem-se agora o exército, o serviço militar, o recrutamento de todos os estudantes - sabeis o que se passa. E aceitais tudo isso com a mesma facilidade com que aceitais a não violência porque vos convinha; agora aceitais com a mesma facilidade a violência porque vos convém. Por isso o vosso ideal da não-violência não tem nenhum significado.
E todos os nossos ideais, por mais sublimes, sedutores e belos que seja, nada significam. Porque criam conflito entre o que é e «o que deveria ser» .O importante é o que é e não «o que deveria ser». Compreendei, o que é importante é o que é. As pessoas são violentas, cruéis, rancorosas, têm aversões e protegem a sua «segurança», a qualquer preço - o facto é este e não a sua não-violência, «ahimsa» - o que é perfeitamente absurdo.
Quando a pessoa observa o que é, sem o ideal - que é um afastamento de o que é, um modo de fugir de o que é - então, ou diz, «Bem, aceito o que é, para viver com isso», ou a pessoa tem uma acção directa sobre esse facto; ou , ainda, é o facto que tem uma acção directa sobre a pessoa. O importante é ser-se capaz de observar realmente o que é - quer se sinta cólera, desejo ou avidez disto ou daquilo, etc. Sabemos o que os seres humanos são interiormente. Observar tudo isso, sem lhe dar nome, sem dizer, «Estou irritado, não devo estar irritado», mas apenas observar o facto; saber o que ele significa, a profundidade, o extraordinário sentimento que está por trás de todos esses movimentos subtis, secretos. Se observarmos assim, veremos que devido a essa observação, há liberdade, e devido a essa Liberdade, há acção imediata.
Porque acção significa acção no presente activo. E o não«amanhã». Acção quer dizer presente activo. E o presente activo só pode actuar no presente, quando não existe todo o imenso fardo do medo, do sentimento de culpa, da ansiedade. É pois muito importante compreender a totalidade da psique, a totalidade da nossa consciência. Como já antes apontei, esta tarde, quando se observa, pode-se ver que a mente - não só o cérebro, mas a toltalidade da mente - se esvazia.
Sabeis o que é o espaço? Há espaço - distância - entre vós e a árvore, há espaço entre vós e o corvo, e o barulho que ele está a fazer, há espaço entre vós e as estrelas - espaço, distância, que envolve tempo. Ora quando vos observais a vós mesmos, é preciso haver «espaço» entre» vós e o que observais: geralmente não temos esse espaço; enchemo-lo por completo com as nossas opiniões, os nossos juízos. Mas é preciso haver espaço. A mente tem de ter espaço dentro de si mesma. Só nesse espaço no interior da mente pode haver uma mutação, pode nascer uma coisa nova. Esse espaço na mente existe, de facto quando ela é inocente.
A mente inocente tem espaço, como a criança no ventre materno. Mas a mente que está completamente cheia, que está entorpecida pelo seus desesperos, pelos seus medos, alegrias, prazeres - essa mente nunca está vazia; e por isso para ela nada existe que seja novo, nada que seja novo pode surgir. Só nesse vazio pode ter lugar uma coisa nova, uma mutação. Esse vazio, esse espaço é liberdade. E para que exista esse espaço, temos de compreender toda a estrutura, consciente e inconsciente, de nós mesmos.
Quase todos vivemos, no nível consciente, de modo muito superficial, porque geralmente nos preenchemos com os nossos empregos, com a família, com as nossas necessidades imediatas. Vivemos na superfície. A sociedade, a «educação» que recebemos, o mundo - todos exigem que se viva na superfície. E por baixo dela atingindo grande profundidade, estão as nossas tradições, as nossas esperanças, os nossos medos, os nossos deuses. Toda a existência obscura do ser de cada um está ali - e cada um tem também de compreender isso. Assim, quando a mente deseja compreender o inconsciente , a parte consciente tem de estar quieta, por algum tempo ou durante o tempo todo; e só então o inconsciente começa a contar a sua história. Para se compreender o inconsciente , ou se adopta o processo de o analisar, indefinidamente, ou se atravessa, num momento, o inconsciente. É o que fazemos quando percebemos imediatamente, sem lhe dar nome, toda a actividade de nós mesmos.
A liberdade, pois, não é uma reacção - é um estado de ser. É um sentir. Cada um tem de libertar-se, tem de ser livre, mesmo nas pequenas coisas - o domínio do marido sobre a mulher, ou da mulher sobre o marido, as ambições, avidez, a inveja. Quando cada um passa, num momento, através de tudo isso, sem se dar tempo para argumentar, então verá que observar, apenas, sem analise, sem «pesquisas» introspectivas, observar - ver as coisas com o são, sem autocompaixão, sem desejo de mudar, observar, apenas - é ter aquele espaço.
E no momento em que há aquele espaço intocado pela sociedade, então, nesse estado, acontece uma mutação. E precisamos de uma mutação neste mundo, porque é dessa mutação que nasce o *indivíduo. E só o indivíduo pode fazer alguma neste mundo, para dar origem a uma revolução total, uma mudança, uma transformação completa. O que é necessário neste mundo, presentemente, é o indivíduo que nasce daquele vazio.
Já ouvistes um tambor a ser percurtido repetidamente? o homem que o toca pode produzir qualquer som, e esse som é claro, exacto, vivo, penetrante, porque o tambor está vazio. Se estivesse cheio, não poderia produzir um som claro, nítido, belo.
Do mesmo modo, quando, quando a mente tem espaço, tem essa extraordinária qualidade do vazio, então, nesse estado, ela actua; e a sua acção é fruto da mutação total. Só essa mente pode compreender o que está para além dela.
16 de Fevereiro de 1964
*Noutras obras, Krishnamurti faz notar que o indivíduo (aquele que não está dividido, fragmentado) é o ser humano que sente e vive a vida como um todo. Daí um sentido de «responsabilidade total pela humanidade inteira - responsabilidade que é amor. só ela pode transformar radicalmente o estado da sociedade» ( Letters to the Schools, pags. 25 .Ed Krishnamurti Foundation, england,1981).
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
para ler de cá para lá
.
.
.
..
.
.
..
...
uma mente livre...
uma ausência de centro...
uma entrega ao que é!
não há o pensamento que institui o pensador
não há o pensamento que institui o pensador
Olho assim...
terça-feira, 22 de setembro de 2009
a vida é um espelho
somos o que somos, não há teias de aranha nem buracos escuros, há nós mesmos, e mais de nós mesmos,observo o presente agora, observem o presente agora, o inconsciente dá-nos imagens, quando omitimos actividade, são passado ou podem ser futuro, ambas estão condicionadas ao tempo psicológico, observamos porque fazemos parte de uma toda história humana e não só uma parte.
Não se trata de concordar ou discordar, se é correcto ou incorrecto, bom ou mau, trata-se de observar simplesmente, o que é.
"Não sei se me compreendeis" mas é mto importante...
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
acreditar só por si é uma mentira...só porque não é viva!
Você acredita em Deus?
Você acredita que vai para o céu?
Você acredita que será salvo?
Você acredita que nós homens vamos conseguir mudar?
ou observa essa transformação na realidade e vê com toda a clareza...quem decide e o quê...
sob uma capa de crenças!...?
enquanto o homem acreditar nunca poderá mudar...o homem tem de cessar de acreditar para passar a olhar para si mesmo e não para as suas crenças!
Você acredita que vai para o céu?
Você acredita que será salvo?
Você acredita que nós homens vamos conseguir mudar?
ou observa essa transformação na realidade e vê com toda a clareza...quem decide e o quê...
sob uma capa de crenças!...?
enquanto o homem acreditar nunca poderá mudar...o homem tem de cessar de acreditar para passar a olhar para si mesmo e não para as suas crenças!
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Krishnamurti...pode ter pensado...muita coisas e dito muito mais...mas a maneira como ele observa a composição da nossa realidade...o nosso mundo... sem separar... premitindo...que as coisas tomem o seu exacto lugar...seja ele qual for, meu irmão! Querendo com isso que todos, por si mesmos cheguem mais profundamente as suas proprias vivências... e consciências! Sabendo que para transformar o que é...o que é tem que ser o que é...pois não sendo nunca poderá ser transformado!
É neste ponto...onde sinto uma pessoa inteira neste Homem Krishnamurti!
É neste ponto...onde sinto uma pessoa inteira neste Homem Krishnamurti!
Subscrever:
Mensagens (Atom)