segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Essência Do Ensinamento de K.

A pedido de Mary Lutyens, Krishnamurti escreveu, em Outubro de 1981, uma declaração no seu livro The Years of Fulfilment, o segundo volume da sua biografia de Krishnamurti. Ao reler a declaração em 1983, Krishnamurti fez algumas alterações aqui incluídas. Esta é a declaração final e completa.

A essência do ensinamento de Krishnamurti está contida na declaração que fez em 1929 quando disse ´A Verdade é uma terra sem caminhos`. O homem não chegará a ela através de organização alguma, através de qualquer crença, através qualquer dogma, sacerdote ou ritual, nem através do conhecimento filosófico ou da técnica psicológica.
Ele tem de descobri-la através do espelho das relações, através da compreensão do conteúdo da sua própria mente, através da observação e não pela analise intelectual ou dissecação introspectiva. O homem tem construído imagens em si próprio, como uma barreira de segurança - imagens religiosas, políticas, pessoais.
Estas imagens manifestam-se como símbolos, ideias, crenças. O fardo dessas imagens domina o pensamento do homem , as suas relações e a sua vida diária. Tais imagens são a causa dos nossos problemas, pois elas dividem os homens. A sua percepção da vida é formada pelos conceitos já estabelecidos na sua mente. O conteúdo de sua consciência é a sua completa existência. Este conteúdo é comum a toda a humanidade.
A individualidade é o nome, é a forma e a cultura superficial que o homem recolhe da tradição e do ambiente. A singularidade do homem não se encontra no superficial, mas sim na completa libertação em relação ao conteúdo da sua consciência, que é comum a toda a humanidade. Assim, ele não é um indivíduo.
A liberdade não é uma reacção; a liberdade não é uma escolha. É pretensão do homem pensar que, por poder escolher, ele é livre. Liberdade é observação pura sem direcção, sem medo de castigo ou recompensa. A liberdade não tem motivo; a liberdade não se acha no fim da evolução do homem, mas sim no primeiro passo da sua existência. Na observação começamos a descobrir a falta de liberdade. A liberdade reside na percepção, sem escolha, da nossa existência e actividade quotidianas.
O pensamento é tempo. O pensamento nasce da experiência e do conhecimento, que são inseparáveis do tempo e do passado. O tempo é inimigo psicológico do homem. A nossa acção baseia-se no conhecimento, portanto, no tempo e, deste modo, o homem é sempre escravo do passado. O pensamento é sempre limitado e, por conseguinte, vivemos em constante conflito e luta. Não existe evolução psicológica.
Quando o homem se tornar consciente do movimento dos seus próprios pensamentos ele verá a divisão entre o pensador e o pensamento, entre o observador e a coisa observada, entre aquele que experimenta e a experiência. Ele descobrirá que esta divisão é uma ilusão. Só então haverá observação pura que é percepção (insight) sem qualquer sombra do passado ou do tempo. Esta percepção intemporal (insight) produz uma profunda e radical mutação na mente.
A negação total é a essência do positivo. Só quando há negação de todas as coisas que o pensamento produz psicologicamente, é que existe o amor, que é compaixão e inteligência.

J. KRISHNAMURTI : Immortality. Part 1 (of 6).

Krishnamurti : Role of A Flower. Part 1. (of 3)

Krishnamurti - Is there security, psychologically? - 1 of 4

sábado, 10 de outubro de 2009

KRISHNAMURTI : Dialogue on Death - Part 11. (1 de 12)

Remember what Krishnamurti said; Doubt Everything, that incluides him.

ADENTRUM K.


LIVROS DE K. TRADUZIDOS E PUBLICADOS EM PORTUGAL

O MUNDO SOMOS NÓS – Editora Livros Horizonte

CARTAS ÀS ESCOLAS – Editora Livros Horizonte

O DESPERTAR DA SENSIBILIDADE – Editorial Estampa

O VOO DA ÁGUIA – Editorial Estampa

A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM – Edições Itau

MEDITAÇÕES – Editorial Presença

APRENDER A VIVER – Livros de Vida Editores

MEDITAÇÃO-A LUZ DENTRO DE NÓS – Editora Dinalivro

A VIDA – Editorial Presença

SERÁ QUE A HUMANIDADE PODE MUDAR? – Editora Dinalivro

O SENTIDO DA LIBERDADE – Editorial Presença

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(AlGO DO) MATERIAL DE K. NA INTERNET

NUCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI - http://www.kfoundation.org/portugal/

THE ONLINE REPOSITORY OF AUTHENTIC TEACHING OF J. KRISHNAMURTI -http://www.jkrishnamurti.org/

JIDDU KRISHNAMURTI - http://www.jiddu-krishnamurti.net/#

SOBRE A MENSAGEM DE KRISHNAMURTI - http://www.cuidardoser.com.br/coletanea-krishnamurti.htm

KRISHNAMURTI & THE ART OF AWAKENING IN THE MOMENT. - http://www.kinfonet.org/

KRISHNAMURTI AND EDUCATION -http://krishnamurti-and-education.org/

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Observar, simplesmente, exercício fundamental, que não significa concordar ou discordar, mas deixa-los, ocupar o seu exacto lugar.

Não basta escrever, temos caminhar na direcção... observar atentamente, o medo, a segurança, o sofrimento, a crença, a vida e a morte, o amor, a paixão e o próprio entendimento das coisas...

o encontro com todos é um caminho sozinho, que não premite desvios, sob pena de acomodações, por tal um tem que ser livre interiormente

KRISHNAMURTI : The Last Talks - Talk 3. (Part 1 of 7).

KRISHNAMURTI : The Last Talks - Talk 2. (Part 1 of 7).

KRISHNAMURTI : The Last Talks - Talk 1. (Part 1 of 8).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Unity of Human Beings

Há grande beleza no acto de observar, no ver as coisas como são, psicológica e interiormente; isso não significa aceitá-las, nem rejeitar o que é, ou esforçar-se por modificá-lo - a propria percepção do facto psicológico, do que é, produz a sua mutação. Mas precisamos de saber a arte de olhar, que não é introspectiva ou analítica; consiste simplesmente em observar sem qualquer escolha.

in Voo Da Águia

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

- O que fazer com nada?

[as expressões em itálico são genuinas de Krishnamurti]

Krishnamurti fala de uma realidade que está por baixo ou além da aparência à superfície da nossa realidade subjectiva consensual. Ele refere-se muitas vezes a essa realidade como o 'outro' ou o 'desconhecido', e algumas vezes também como verdade, amor ou liberdade. Esta verdadeira natureza das coisas - como apresentada nos seus diários publicados - é descrita como algo 'completamente diferente', como alguma coisa muito extraordinária. Apesar da sua 'outra mundanidade', Krishnamurti, contudo, mantém que todo o cérebro humano é capaz de encontrar ou de contactar esta realidade inefável - ainda que, de certa maneira, isso seja desde sempre extremamente intrigante para nós.

Quaisquer tentativas de uma clarificação mais profunda são constantemente cortadas pela insistência de Krishnamurti de que não pode haver tal coisa como 'orientação espiritual'. Krishnamurti desencoraja a inclinação natural da mente de progredir na compreensão crescente desta realidade mística. De facto, todo o grosso dos ensinamentos de Krishnamurti pode ser interpretado como uma chamada de atenção cerrada para o facto de estarmos sozinhos e de que não pode haver ajuda de ninguém nem nada nestas questões.

O que é que se verifica quando ajudamos alguém psicologicamente? A ajuda normalmente implica trazer ao de cima certas falhas no padrão de raciocínio do outro - sendo o objectivo produzir uma outra visão que se considera ser mais saudável, mais sã, mais apropriada, etc. O sucesso desta tentativa depende tanto da capacidade de comunicação daquele que ajuda como no anuir daquele que recebe.

Embora o objectivo expresso de Krishnamurti fosse tornar o homem 'absolutamente e incondicionalmente livre', contudo, ele afirmou repetidas vezes que não nos podia ajudar a tornar-nos livres. Ajuda é orientação; implica directa influência sobre o raciocínio, muitas vezes através da substituição de um conjunto de ideias por outro. 'A verdade, ou o que quiserem, não pode ser descoberta pela mente; o pensamento não pode ir atrás dela'. Muitas vezes, culpa-se Krishnamurti por falhar na sua missão, mas a substância das razões invocadas contra ele, raramente levam em conta que a sua intenção nunca foi mudar o que nós pensamos, ou mesmo como nós pensamos. Estes conceitos de 'tornar-se', 'levar a' e 'mudança' são antagónicos à sua visão de liberdade incondicional, que para ele é de uma ordem completamente diferente.

Ver que a nossa realidade subjectiva não tem relação com esta verdade, pode fazer-nos procurar uma apreciação 'objectiva' ou impessoal de 'o que é'. De facto, o estilo das discussões de Krishnamurti, o seu modo´crítico de examinar, encoraja-nos a cultivar uma mente séria e inquiridora, que, dentro do possível, esteja despida de julgamento pessoal, de opinião ou preferência. O diálogo inspirado em Krishnamurti é muitas vezes marcado pelo sentimento de que refinando as capacidades investigadoras da mente acabará por resultar na compreensão em quinta essência que abrirá a porta à verdade.
Contudo, Krishnamurti até mesmo a ideia de 'compreensão objectiva' rejeita, como tranpolim para a verdade. A compreensão requer colocar a questão em causa na engrenagem da línguagem, o exprimível. Esta circunscrição, por muito verdadeira e precisa que seja, não é a coisa descrita. É experiência comum que a satisfação que acompanha uma compreensão intelectual ou emocional não perdura.

Os ensinamentos de Krishnamurti não apontam a verdade. Antes, ele considera que qualquer coisa que seja apontada não pode ser a coisa verdadeira, mas apenas uma descrição ou testemunho da verdade. A determinação de Krishnamurti de não ser elevado ao nível de autoridade não é falsa modéstia, mas tão só uma afirmação de facto - nomeadamente, que 'a verdade' não se encontra nem no seu ensinamento nem em nenhum outro. Neste sentido, o ensinamento de Krishnamurti não é diferente de nenhum outro e deve ser compreendido por aquilo que é - uma descrição com base na linguagem.

Tomando isto em conta, a tentativa de encurralar a verdade no campo da experiência pode ser comparada à conhecida anedota sobre uma pessoa que perde as chaves à noite e começa a procurá-las junto do lampião de rua mais próximo. Contudo, apesar da natureza avassaladoramente 'desconstrutiva' dos seus ensinamentos, Krishnamurti deixa-nos uma importante chave, nomeadamente, que o desconhecido não se pode tornar conhecível.

Como lidar com esta aparente contradição no ensinamento de Krishnamurti de que a nossa consciência pode ser tocada pela verdade e ao mesmo tempo que a verdade não é conhecível, de que pode haver 'observação' sem um observador? O que achamos é que é incrivelmente difícil deixar o desconhecido desconhecido, não lhe dar atributos, não imaginar se é excitante ou temível. Ora vimos com razões quanto a por que é que o que Krishnamurti alude é impossível ou, alternativamente, pomo-nos a adivinhar ao acaso por que é que tem que ser fazível. Em ambos os casos, a nossa mente, às escuras e parte da escuridão, opera dentro dos seus próprios limites - talvez, se tivermos sorte, refreada pela lógica. Krishnamurti propõe que a nossa experiência de estarmos perdidos em contradições, sentindo que não há saída e mesmo os próprios contrários do 'conhecido' e do 'desconhecido' só são aplicáveis no contexto do pensamento e da linguagem.

'A mente não é o nosso último recurso para resolvermos os nossos problemas; pelo contrário, é quem produz os nossos problemas'. Desta forma, é preocupação central de Krishnamurti pôr a nu as artimanhas do pensamento. Para ele, o nosso dilema não advém apenas da tendência da mente de ficar prisioneira de ilusões. Até a cuidadosa percepção de 'o que é', lidando com factos em vez de permitir o raciocínio do desejo é em última instância ' agregadora'. Isto vai contra a cultura do questionar que procura deixar cair uma ilusão atrás da outra até que nada mais reste senão a verdade. Ver 'o que é' é apenas metade da história, na medida em que os factos nunca ficam sozinhos uma vez chegados ao cérebro. Mesmo no caso da relativamente não distorcida percepção de um facto, segue-se imediatamente uma avaliação que na maior parte é baseada na relação do facto com aquele que percepciona. Nós 'agregamo-nos' à verdade colando a nossa comparação pessoal e o nosso julgamento e ao fazê-lo a verdade não nos liberta, até nos sobrecarrega.

Conforme diz Krishnamurti repetidas vezes, 'isto' - significando pensamento - não pode ter nenhuma relação com 'aquilo' - significando a verdade, o desconhecido. Ainda que a verdade não possa ser afunilada com o pensamento ou a linguagem deve, por definição, conter tudo, incluindo a sua própria descrição e distorção. O que significará então estar em 'contacto' com a verdade, 'ir de encontro à verdade', como ele diz? Será tal coisa possível?

'A nossa consciência é um processo total, embora possa ter contradições em si mesma'. Nomear, interpretar, experimentar, são mais acções de fragmentos do que o movimento da totalidade da consciência. Perguntar como ultrapassar a divisão e integrar todos os fragmentos será complicar uma complicação. Nenhuma força pode fundir aquilo que não 'quer' unir-se.

Então, o que nos resta? 'Estamos a falar de uma coisa completamente diferente, não estamos? Tendo estado em todo o lado, tendo tentado tudo, a única direcção que resta será a não direcção, o sossego absoluto. 'Toma apenas consciência da completa necessidade e importância de uma mente calma'. De facto, não há mais nada que possamos fazer. Tão simples como Krishnamurti o faz parecer, vemos de facto a necessidade de uma mente calma ou aceitámos que é uma coisa por que vale a pena lutar?

A luta produz resultados que são tão voláteis e mutáveis como o processo através dos quais foi adquirida. O único factor estável e imutável e que também pode ser universalmente aplicado a toda a consciência humana é a necessidade de sossego. A necessidade de sossego põe uma enorme pressão no cérebro - pois isto é um problema diferente de qualquer outro, um problema que requer uma abordagem completamente nova.

'Sentir e nomear' é uma ocorrência simultânea para quase todos nós, quer dizer, a percepção está inextricavelmente ligada a uma espécie de narrativa interpretativa sobre os dados recebidos. Parece que esta sequência está estabelecida no nosso cérebro da mesma forma que certas operações sensoriais pre-conscientes. O manto de frases que enrolamos à volta da nossa percepção torna-se a experiência em que confiamos e que lembramos. O processo de nomeação é automatizado, inconsciente e só é reconhecido após o facto.

Qualquer espécie de resposta ou reacção ao que é visto - quer seja emocional ou racional - é um sinal infalível de que os dados sofreram processos cerebrais mais elevados envolvendo a memória e a linguagem.

Poderá realmente haver, como Krishnamurti sugere, uma lacuna entre o ver e a verbalização, entre o sentir e o nomear? Não no sentido de um intervalo de tempo, mas talvez mais no sentido de amplidão. A amplidão da atenção sem interferências.

É opinião dos escritores do editorial que Krishnamurti é um exemplo dos nossos dias do ser humano verdadeiramente livre. Estes editoriais reflectem o nosso interesse no homem mais extraordinário e no que ele tem para nos dizer. A intenção aqui não é nem representar nem re-apresentar Krishnamurti, mas simplesmente prosseguir no envolvimento com os seus trabalhos. Desnecessário será dizer que a natureza fascinante e intrincada dos escritos de Krishnamurti exige que sejam lidos cuidadosamente e em primeira-mão.

SOBRE A CRENÇA

Pergunta : Acreditar em Deus tem sido um poderoso incentivo para melhorar a vida. O senhor rejeita Deus, porquê? Por que não tenta restabelecer a fé do homem na ideia de Deus?

Krishnamurti : Olhemos para o problema de um modo aberto e inteligente. Eu não rejeito Deus – isso seria demasiado estúpido. Só o homem que não conhece a realidade utiliza palavras sem significado. Aquele que diz que sabe, não sabe; aquele que experiencia a realidade a todo o momento não tem meios para comunicar essa realidade.

A crença é a negação da Verdade; a crença impede a Verdade; acreditar em Deus é não encontrar Deus. Nem o crente nem o não-crente encontram Deus; porque a Verdade é o desconhecido, e acreditar ou não no desconhecido é uma simples projecção pessoal e portanto não é real. Sei que você é crente, e sei também que isso tem pouco significado na sua vida. Há muita gente crente; milhões acreditam em Deus e nisso obtêm consolo. Primeiro que tudo, por que é crente? É crente porque isso lhe dá satisfação, consolo, esperança e, como você afirma, dá significado à vida. De facto, o seu acreditar tem muito pouco significado, porque acredita e explora os outros, acredita e mata, acredita num Deus universal e aceita que os homens se matem uns aos outros. O homem rico também acredita em Deus, ele explora sem piedade, acumula riqueza, e depois constrói um templo ou torna-se filantropo.

Os homens que largaram a bomba atómica em Hiroshima disseram que Deus estava com eles; aqueles que voaram de Inglaterra para destruir a Alemanha afirmavam que Deus era o seu co-piloto. Os ditadores, os primeiros-ministros, os generais, os presidentes, todos eles falam de Deus, têm imensa fé em Deus. E estarão eles a fazer o que deviam fazer, construindo uma vida melhor para os seres humanos? As pessoas que afirmam acreditar em Deus já destruíram metade do mundo, e este planeta está uma completa desgraça. Através da intolerância religiosa criam-se divisões entre os povos, os que acreditam e os que não acreditam, o que conduz a guerras religiosas. Isso demonstra como as nossas mentes estão extraordinariamente politizadas.
Será que acreditar em Deus é “um poderoso incentivo para uma vida melhor”? Por que queremos nós um incentivo para viver melhor? Claro que esse incentivo deve ser o nosso próprio desejo de viver com higiene e com simplicidade, não é assim? Se procuramos um incentivo, é porque não estamos interessados em tornar a vida melhor para todos, estamos apenas interessados no nosso incentivo, que é diferente do de outra pessoa – e acabaremos por lutar por causa de um incentivo. Se vivermos em paz uns com os outros, não porque acreditamos em Deus mas porque somos seres humanos, então partilharemos todos os meios de produção com o objectivo de produzir coisas para toda a gente. Devido à falta de inteligência, aceitamos a ideia de uma super-inteligência a que chamamos “Deus”; mas esse “Deus” não nos vai proporcionar uma vida melhor. O que conduz a uma vida melhor é a inteligência; e não pode existir inteligência se houver crença, se houver divisões sociais, se os meios de produção estiverem nas mãos de poucos indivíduos, se existirem nações isoladas e governos soberanos. Tudo isto indica falta de inteligência e é a falta de inteligência que está a impedir uma vida melhor, e não a descrença em Deus.

Todos nós acreditamos de modos diferentes, mas a crença não tem qualquer realidade. A realidade é aquilo que cada um é, o que cada um faz, pensa, e acreditar em Deus é um mero escape para a nossa monótona, estúpida e cruel existência. Mais, a crença invariavelmente divide as pessoas: há o hindu, o budista, o cristão, o comunista, o socialista, o capitalista, e tudo o resto. A crença e a ideia dividem; nunca levam as pessoas a estarem unidas. Algumas pessoas podem juntar-se e formar um grupo; mas esse grupo acaba por se opor a outro grupo. Ideias e crenças nunca são unificadoras; pelo contrário, elas são separativas, desintegradoras e destrutivas. Portanto, a crença em Deus está de facto a espalhar a infelicidade no mundo; embora essa crença nos traga consolo momentâneo, ela na realidade trouxe mais sofrimento e destruição na forma de guerras, fome, divisão de classes e a impiedosa acção de indivíduos que se puseram à parte. Assim, a crença não tem validade alguma. Se acreditássemos realmente em Deus, se isso fosse uma experiência real para nós, então haveria um sorriso na nossa face; e não destruiríamos os outros seres humanos.

O que é a Realidade? O que é Deus? Deus não é a palavra, a palavra não é a Realidade. Para conhecer isso que é imensurável, que não está no tempo, a mente tem de estar liberta do tempo, quer dizer, a mente tem de se libertar de todo o pensamento, de todas as ideias acerca de Deus. O que sabemos nós sobre Deus ou a Verdade? Não sabemos realmente nada sobre essa Realidade. Tudo o que conhecemos são palavras, são experiências de outros ou alguns momentos de experiências pessoais. Claro que isso não nos dá a conhecer Deus, não é a Verdade, isso não está para além do tempo. Para se conhecer isso que está para além do tempo, temos de compreender o processo do tempo, tempo sendo pensamento, sendo o processo de “vir a ser”, sendo acumulação de conhecimentos. Isso é tudo o que está por detrás da mente; a mente, em si, é esse fundo (background), é o consciente e o inconsciente, é o colectivo e o individual. Assim, a mente tem de estar livre do conhecido, isto é, ela tem de estar completamente em silêncio, não forçada ao silêncio. A mente que atinge o silêncio como um resultado, como o produto de determinada acção, prática ou disciplina, não é uma mente em silêncio. A mente que é forçada, controlada, moldada, posta dentro de limites e mantida quieta, não é uma mente em paz. Podemos ter sucesso por algum tempo em forçar a mente a ser superficialmente silenciosa, mas tal mente não é uma mente serena. A serenidade só acontece quando compreendemos todo o processo do pensamento, porque compreender esse processo é acabar com ele, e na cessação do processo do pensamento está o começo do silêncio.

Só quando a mente está completamente em silêncio, não apenas a um nível superficial mas a um nível profundo da consciência – só então o desconhecido pode manifestar-se. O desconhecido não é algo para ser experimentado pela mente; apenas o silêncio, e só o silêncio pode ser experienciado. Se a mente experimenta o silêncio, é porque está simplesmente a projectar os seus próprios desejos, e uma tal mente não está em silêncio; enquanto a mente não estiver em silêncio, enquanto o pensamento sob qualquer forma, consciente ou inconsciente, estiver em movimento, não poderá haver silêncio. Silêncio é libertação do passado, dos conhecimentos, de memórias conscientes e inconscientes; quando a mente está em completo silêncio, não em funcionamento, quando há silêncio que não é produto do esforço, então o Intemporal, o Eterno dá-se a mostrar. Esse estado não é um estado para lembrar – não há qualquer entidade a recordá-lo, a experimentá-lo.

Portanto, Deus, a Verdade, chamemos-lhe o que quisermos, é algo que se manifesta a todo o momento, e isso só acontece num estado de liberdade e de espontaneidade, não quando a mente é disciplinada de acordo com um padrão. Deus não é uma coisa da mente, não vem através da autoprojecção; só acontece quando há virtude, que é liberdade. Virtude é enfrentar o facto de o que é, e enfrentar o facto gera um estado de bênção. Quando a mente está nesse estado de profunda alegria, em paz, sem qualquer movimento, sem a projecção consciente ou inconsciente do pensamento, – só então o Eterno se manifesta.

in A Primeira e Última Liberdade

A ACTIVIDADE EGOCÊNTRICA

QUASE TODOS NÓS se apercebem de que todas as formas de persuasão, todas as espécies de estímulos nos têm sido oferecidos para resistir às actividades egocêntricas. As religiões, por meio de promessas, por meio do medo do inferno, através de todas as formas de condenação, têm tentado diferentes maneiras de dissuadir as pessoas desta constante actividade que nasce do centro do “eu”. Como estas não deram resultado, as organizações políticas chamaram isso a seu cargo. E de novo tentaram persuadir as pessoas; aí residia a última esperança da utopia.

Todas as formas de legislação, das mais limitadas às mais extremas, incluindo campos de concentração, têm sido usadas e postas em vigor contra todas as formas de resistência. Apesar disso continuamos na nossa actividade egocêntrica – a única espécie de acção que parecemos conhecer. Se pensarmos de facto sobre isto tentamos modificar-nos; se damos conta dessa actividade, tentamos mudar essa tendência, mas fundamentalmente, profundamente, não há qualquer transformação, não há um findar radical dessa actividade. As pessoas sérias apercebem-se disto e também se apercebem de que só quando cessa essa actividade do centro, e só então, pode haver felicidade.

Quase todos nós não têm dúvidas de que a actividade egocêntrica é natural e que a acção que dela resulta, e que é inevitável, só pode ser modificada, moldada e controlada. Ora, aqueles que são um pouco mais sérios, mais reflectidos, e não digo sérios – porque (pensam) que a “sinceridade” é o caminho da auto-ilusão – têm de descobrir, dando-se conta deste extraordinário processo total da actividade egocêntrica, se poderemos transcendê-la.

Para compreendermos o que é esta actividade egocêntrica, obviamente temos de a examinar, de a olhar, temos de aperceber-nos do processo total. Se formos capazes de nos apercebermos dela, há então a possibilidade de a dissolver; mas aperceber-nos dela requer uma certa compreensão, uma certa intenção de a encarar como ela é, sem interpretar, sem modificar, sem a condenar. Temos de dar-nos conta do que estamos a fazer com toda a actividade que brota desse estado egocêntrico; temos de estar conscientes dela. Uma das nossas primeiras dificuldades é que no momento em que estamos conscientes dessa actividade, queremos moldá-la, controlá-la, queremos condená-la ou modificá-la, assim raramente somos capazes de a olhar directamente. E quando alguns de nós o fazem, muito poucos são capazes de saber o que fazer.

Compreendemos que essas actividades egocêntricas são prejudiciais, destrutivas, e que todas as formas de identificação – com um país, com um grupo determinado, com um desejo particular, a busca de um resultado nesta vida ou depois da morte, a glorificação de uma ideia, seguir um exemplo, cultivar a “virtude”, etc. – é essencialmente a actividade de uma pessoa egocêntrica. Toda a nossa relação com a natureza, com as pessoas, com as ideias, são resultado dessa actividade. Sabendo isto, o que se há-de fazer? Toda essa actividade deve espontaneamente terminar – não de modo auto-imposto, não influenciado, não guiado por alguém.
Quase todos têm consciência de que esta actividade egocêntrica cria malefícios e caos, mas só estamos conscientes disso em certas direcções. Ou o observamos nos outros e ignoramos as nossas próprias actividades, ou apercebendo-nos, na relação com os outros, da nossa própria actividade egocêntrica, queremos transformá-la, queremos encontrar um substituto, queremos transcendê-la. Antes de podermos lidar com ela, precisamos de saber como nasce este processo. Para compreendermos alguma coisa temos de ser capazes de a olhar; e para a olhar precisamos de conhecer as suas próprias actividades em diferentes níveis, tanto conscientes como inconscientes – as directivas conscientes e também os movimentos egocêntricos dos nossos motivos e intenções inconscientes.

Só estou consciente desta actividade do “eu” quando estou em oposição, quando a consciência é contrariada, quando o “eu” está desejoso de alcançar um resultado. Não é assim? Ou, então, estou consciente desse centro quando o prazer chega ao fim e desejo ter mais prazer; então, há resistência e um propositado moldar da mente para um fim determinado que me dará satisfação; apercebo-me de mim mesmo e das minhas actividades quando quero “vir a ser” virtuoso conscientemente. É evidente que uma pessoa que quer tornar-se “virtuoso” conscientemente não é virtuosa. Não podemos cultivar a humildade, e essa é a beleza da humildade.

Este processo egocêntrico é resultante do tempo. Enquanto este centro de actividade existe, em qualquer direcção, consciente ou inconsciente, há o movimento do tempo (psicológico) e eu estou consciente do passado e do presente, em conjunção com o futuro. A actividade egocêntrica do “eu” é um processo de tempo. É a memória que dá continuidade à actividade do centro, que é o “eu”. Se nos observarmos a nós mesmos e nos apercebermos deste centro de actividade, veremos que ele é só o processo do tempo, da memória, de experienciar e traduzir todas as experiências de acordo com a memória; veremos também que essa actividade do “eu” é (re)conhecimento, o qual é igualmente um processo da mente.

Será que a mente será capaz de ficar liberta de tudo isto? Talvez seja possível em raros momentos; pode acontecer a quase todos nós quando realizamos um acto inconsciente, não intencional, sem um objectivo determinado. Mas será possível para a mente estar sempre completamente livre da actividade egocêntrica? É uma pergunta importante a fazer a nós mesmos porque nesse próprio perguntar, encontraremos a resposta. Se nos dermos conta do processo total desta actividade egocêntrica, conhecendo completamente as suas actividades nos vários níveis da nossa consciência, então teremos sem dúvida de perguntar a nós próprios se é possível essa actividade terminar. Será possível não pensar em termos de tempo, não pensar em termos do que serei, do que tenho sido, do que sou? Porque é de um tal pensamento que todo o processo da actividade egocêntrica começa; aí também se inicia a determinação de “vir a ser”, a determinação de escolher e de evitar, que são todas, um processo de tempo. E percebemos nesse processo infinitos malefícios, infelicidade, confusão, deformação, deterioração.

O processo do tempo não é revolucionário, seguramente. Neste processo não há transformação; só há continuidade e não tem fim – apenas há (re)conhecimento. Só quando temos o completo cessar do processo do tempo, da actividade do “eu”, há uma revolução, uma transformação, o nascimento do novo.

Apercebendo-nos da totalidade deste processo do “eu” na sua actividade, que pode a mente fazer? Só com a renovação, só com uma revolução – e não por meio da evolução, não através do vir a ser do “eu”, mas através do completo findar do “eu” – é que o novo existe. O processo do tempo não pode trazer o novo; o tempo não é o modo de criar. Não sei se alguns de vós tivestes um momento de criatividade. Não estou a falar de pôr alguma visão em acção; quero referir-me àquele momento de criar, quando não existe (re)conhecimento. Nesse momento, há aquele estado extraordinário no qual o “eu”, como uma actividade por meio do (re)conhecimento, cessou. Se nos apercebermos disso, veremos que nesse estado não existe um experienciador que se recorda, que traduz, que (re)conhece e depois identifica; não há nenhum processo de pensamento, o qual faz parte do tempo. Nesse estado de criação, de criatividade do novo, que é sem tempo, não existe nenhuma acção do “eu”.

A nossa questão, seguramente é: será possível a mente encontrar-se neste estado, não em raros momentos, mas – e eu preferia não usar as palavras “eternamente” ou “para sempre”, porque isso implicaria tempo – mas existir nesse estado sem relação com o tempo? Esta é seguramente uma descoberta a ser feita por cada um de nós, porque essa é a porta para o Amor; todas as outras portas são actividades do “eu”. E onde existe acção do “eu”, não há Amor. O Amor não tem nada a ver com o tempo. Não podemos “praticar” o Amor. Se o fizermos trata-se então de uma actividade autoconsciente do “eu”, que espera, por meio desse “amar” obter um resultado. O Amor não pertence ao tempo; não podemos encontrá-lo por meio de qualquer esforço consciente, por meio de qualquer disciplina, por meio da identificação – tudo isto faz parte do processo do tempo. Como a mente só conhece o processo do tempo, não é capaz de reconhecer o Amor. Só o Amor é sempre novo. Uma vez que quase todos nós têm cultivado a mente, que é resultado do tempo, não sabem o que é o Amor. Falamos sobre o Amor; dizemos que amamos as pessoas, que amamos os nossos filhos, a nossa esposa, o nosso vizinho, que amamos a natureza; mas no momento em que estamos conscientes de que amamos, a actividade egocêntrica surge; portanto deixa de ser Amor.

Este processo total da mente é para ser compreendido apenas através da relação – relação com a natureza, com as pessoas, com todas as nossas projecções, com todas as coisas à nossa volta. A vida não é nada a não ser relação. Embora possamos tentar isolar-nos da relação, não podemos existir sem ela. Mesmo que a relação seja penosa, não podemos fugir, por meio do isolamento, tornando-nos um eremita, etc. Todos estes métodos são indicações da actividade do “eu”.

Vendo todo este quadro, apercebendo-nos de todo o processo do tempo como consciência, sem qualquer escolha, sem qualquer intenção determinada, sem um objectivo, sem o desejo de qualquer resultado, constataremos que este processo de tempo chega ao fim automaticamente; de forma não induzida, não como um resultado do desejo. Só quando esse processo acaba é que há Amor, o qual é eternamente novo.

Não precisamos de procurar a Verdade. A Verdade não está longe. Ela é a verdade acerca da mente – a verdade acerca das suas actividades, de momento a momento. Se nos apercebemos da verdade deste momento-a-momento, deste processo do tempo no seu todo, esse percebimento liberta a consciência ou a energia que é inteligência, Amor. Enquanto a mente usa a consciência como actividade egocêntrica, o tempo tem de existir, com todas as suas tristezas, com todos os seus conflitos, aflições, os seus malefícios e as suas ilusões. Só quando a mente, compreendendo este processo total, cessa, é que pode surgir o Amor.
in A Primeira e Última Liberdade

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

As palavras são pequenos símbolos que apenas mostram direcções, larga-las no exacto momento em que o entendimento está lá é recompensador.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Liberdade pelo autoconhecimento - J.Krishnamurti

Vamos, esta tarde, pintar um quadro verbal. As palavras não são importantes. Temos de as ouvir sem ficarmos presos ao seu significado superficial. É como olhar um quadro. Geralmente, queremos saber o nome do pintor, e começamos a interpretar, a fragmentar-analisando a construção, a profundidade, a luz, a cor, e pensamos ter muito cuidado, para não nos enredarmos nas palavras ou sermos enredados por elas. Porque, em geral, as nossas mentes são escravas das palavras. Aliás somos escravos, praticamente sob todos os aspectos. As palavras, em especial, têm uma enorme influência na nossa vida; estão carregadas de significado E não escutamos, ficamos incapazes de escutar, porque as palavras despertam uma variedade de símbolos e ideias, despertam medos, esperanças, angústias.

É importante escutar, realmente com uma mente livre que não esteja apenas a rejeitar ou a aceitar palavras, mas que tenha uma sensibilidade profunda, que seja capaz de ver, imediatamente, o que é verdadeiro e o que é falso, sem se basear no conhecimento acumulado. Porque o conhecimento acumulado nunca nos dá a percepção do verdadeiro. O que nos dá essa percepção profunda e livre é a liberdade total. É sobre isso que vamos falar esta tarde.

A palavra «liberdade» está pesadamente carregada - política, religiosa, socialmente, em todos os aspectos. É realmente uma palavra extraordinária, com significado e profundidade enormes; carregamo-la, como acontece com a palavra «amor», de variadíssimos significados - liberdade política, liberdade social, liberdade respeitante ao trabalho; liberdade em relação aos dogmas religiosos e ás crenças; «liberdade» para fugir ás responsabilidades imediatas, aos problemas, à ansiedade, aos medos. A mente quer libertar-se de muitas coisas. E então construímos uma estrutura verbal que nos dá uma aparência de liberdade, mas não sabemos o que significa ser verdadeiramente livre, sentir-se livre - que não é argumentar acerca da liberdade, defini-la, limitar-se a perguntar, « Que entende por liberdade?» Não sabemos, realmente, o que é senti-la, nem quando ela é necessária - não num determinado nível, mas totalmente.

Sem liberdade total*, toda a percepção, toda a visão objectiva fica deformada. Só o ser humano totalmente livre pode olhar e compreender imediatamente. *(liberdade psicológica) Estar livre implica, de facto, o total esvaziamento da mente, não é assim? Esvaziar por completo, a mente do seu conteúdo - essa é a verdadeira liberdade. Liberdade não é a mera revolta contra as circunstâncias, a qual, por sua vez cria outras circunstâncias, outras influências ambientais, escravizadoras da mente. A liberdade a que nos referimos é a liberdade que vem naturalmente, facilmente, de maneira espontânea, quando a mente é capaz de funcionar no seu nível mais alto.

Em geral , os nossos cérebros são indolentes. Estão obscurecidos, tornam-se embotados pela «educação», pela especialização, pelo conflito, por todas as formas de luta interior, psicológica, assim como pelas pressões externas. Os nossos cérebros só estão realmente activos quando há uma exigência imediata, uma crise premente. Fora disso, vivemos, num estado «hipnótico», uma vida monótona, funcionando indolentemente nos nossos empregos e ocupações; por isso, os nossos cérebros não são penetrantes, atentos, despertos, sensíveis, não estão activos ao nível da sua máxima capacidade.

Se o cérebro não funciona ao nível da sua máxima capacidade, não é capaz de ser livre. Porque a mente embotada, superficial, limitada, estreita, medíocre, só é capaz de mera reacção, em face do meio; e devido só ser capaz de reacção, torna-se escrava do mesmo meio. E daqui surge todo o problema de nos libertarmos do meio, e de não sermos escravos das várias influências, directrizes, pressões. Assim, o que é importante é sentirmo-nos real e totalmente livres.

Há duas espécies de liberdade: uma é a libertação de alguma coisa, que é uma reacção, e a outra - que não é uma reacção - é ser livre. Libertarmo-nos de alguma coisa é uma reacção, dependente da nossa escolha, do nosso carácter, do nosso temperamento, de várias formas de condicionamento. É como a reacção de um jovem revoltado contra a sociedade - ele quer ser livre. Ou a de marido que quer livrar-se da mulher; ou a mulher que quer livrar-se do marido; ou o nosso desejo de nos livrarmos da cólera, do ciúme, da inveja, do desespero. Tudo isso são reacções, respostas, a dadas circunstâncias, que impedem a pessoa de funcionar livremente, facilmente.

Queremos a libertação pessoal. E essa libertação é negada numa sociedade onde os costumes e as convenções , os hábitos, as tradições são tremendamente importantes. Daí, a revolta. Ou, então há a revolta contra a tirania, Há portanto, várias formas de revolta, de reacções a pressões imediatas. Isso, realmente, não é verdadeira liberdade, porque toda reacção gera outras reacções, que criam outras circunstâncias, às quais a mente de novo se escraviza. Há, assim, uma repetição constante da revolta: ser-se enredado pelas circunstâncias, revoltar-se contra essas circunstâncias, e assim por diante, interminavelmente.

Estamos a falar de uma liberdade que não é reacção. A mente que é livre não é escrava de coisa nenhuma, de circunstâncias nenhumas, de nenhuma rotina. Embora possa estar especializada no exercício de uma certa função, não é escrava disso, não fica presa nessa rotina; embora viva na sociedade, não pertence à sociedade. E a mente que constantemente se esvazia de todas as acumulações e reacções diárias - só essa mente é livre.

Vivemos pela acção. A acção é imperativa, é necessária. Há a acção nascida da ideia, e há a acção nascida da liberdade. Vamos investigar um problema que requer vivacidade do nosso cérebro, e não a nossa concordância ou discordância. A casa está em chamas, o mundo está em chamas, a arder, a destruir-se a si próprio; e a acção é indespensável. E essa acção não depende das ideias que cada um tem acerca do incêndio, do tamanho do balde a usar, do que cada um irá fazer. É preciso actuar, para extinguir o incêndio. E para o extinguir, não se podem ter ideias a respeito do incêndio: quem deitou à casa, qual a natureza do incêndio, etc.,não há que especular acerca do incêndio. Tem de haver acção imediata. O que significa que a mente precisa absolutamente de sofrer uma completa mutação.

O homem vive há um milhão setecentos e cinquenta mil anos, aproximadamente dois milhões de anos. Biologicamente acumulou muitas experiências, muito conhecimento, passou por muitas civilizações, por muitas pressões e tensões. Somos esse homem, quer o ignoremos quer não. Quer o reconheçamos quer não, somos o ser humano, somos o resultado de dois milhões de anos. E , ou continuamos a evoluir lentamente, passando, infinitamente, por sofrimentos, ansiedades e conflitos de toda a espécie, ou saltamos para fora dessa corrente, em qualquer altura, como quem salta de um barco para a margem do rio - podemos fazer isso em qualquer momento. Mas só a mente livre é capaz de o fazer.

A acção - que significa fazer, ser - se nasce de uma ideia, não é libertadora, não torna a mente livre. E quase todas as nossas acções nascem de fórmula, de um conceito; e assim, não são libertadoras, não trazem liberdade à mente. Se me é permitido sugerir-vos, não fiqueis apenas a escutar as palavras; observai as vossas mentes em funcionamento. Observai-vos a vós mesmos, e vede o que são as vossas acções, e em que é que elas se baseiam. Não se trata de concordar com o «orador» ou discordar dele. Ele está apenas a indicar o que está de facto a acontecer, o que de facto é. Se cada um não observar o que existe em si mesmo, e só ouvir as palavras, então sairá daqui levando apenas cinzas, sairá vazio, sem nada; terá perdido uma hora, uma hora de um belo entardecer.

Precisamos de observar, de observar o funcionamento da nossa própria mente. E isso é extremamente árduo, porque não se está acostumado a observar a actividade do pensamento. Cada um precisa observar o funcionamento da sua mente - sem a guiar, sem a moldar, sem lhe dizer o que deve pensar ou não pensar; observar, apenas, as reacções do cérebro quando ouve as palavras, quando ouve corvos, quando vê as árvores, a luz da tarde, as folhas agitadas pela brisa, a forma de um ramo ou um tronco escuro destacando-se no céu da tarde - apenas temos de observar tudo isso. Quando observamos assim, o cérebro fica vivificado. Mas quando dirigimos essa observação - o que ele deve fazer e o que não deve fazer - então estamos a reagir e a tornar o cérebro embotado e entorpecido.

Para compreender o que é a liberdade e a verdadeira acção, temos de compreender todo o processo do nosso próprio pensamento; isto é, temos de conhecer-nos a nós mesmos. E isso é uma das mais difíceis tarefas que podemos empreender. Porque conhecer-se a si mesmo requer uma mente capaz de olhar-se, sem o conhecimento previamente adquirido. Se nos olharmos com o conhecimento acumulámos, então estamos apenas a projectar ou a traduzir o que vemos, de acordo com o passado e, portanto, não estamos a olhar-nos. Assim olhar-nos a nós mesmos requer uma mente fresca, nova a cada momento. E é aqui que surge a dificuldade. Compreendei isto, por favor. Porque se não compreenderdes o que se está a dizer agora, então, quando examinarmos o problema da liberdade, não sereis capazes de o «agarrar» e de o investigar.

Estamos a falar do ser humano total, no aspecto da psique, da actividade interior, da qualidade do cérebro e da mente. O cérebro faz parte da mente, e a mente é também a psique; a totalidade é a mente. Cada um tem de compreender o funcionamento deste todo - de si mesmo.

Há o «conhecimento» de si mesmo e há o conhecer-se a si mesmo. Se se trata de «conhecimento», trata-se de um mero processo aditivo. Isto é, podemos adicionar-lhe mais conhecimentos por meio da experiência, por meio do exame e da exploração posteriores; e acrescentemos o que vamos descobrindo àquilo que já sabemos. Toda a experiência é traduzida de acordo com o que já se conhece; e a experiência é o desafio, é a resposta a esse desafio. Porque, em cada minuto da nossa consciência, em estado de vigília ou de sono, estamos a ter esse desafio. Quando lhe respondemos adequadamente, de modo total, completo, a resposta não cria conflito e portanto e cérebro mantém - se extremamente activo. Mas quando respondemos ao desafio de acordo com o nosso condicionamento, os nossos conhecimentos, as nossas experiências anteriores, essa resposta cria conflito - há conflito entre o desafio e a resposta.

Se nos observamos a nós mesmos, veremos que quase todos respondemos de acordo com os nossos conhecimentos, a nossa experiência, o nosso condicionamento, como hindu, como budista, como cristão, como comunista, como técnico, como pai de família. Em cada caso, a pessoa adquiriu muita experiência, e reage com toda essa carga de experiência acumulada. E é com todo esse conhecimento acumulado que a pessoa se olha a si mesma. E então diz, «Isto é bom, isto é mau; devo conservar isto, devo rejeitar aquilo». quando faz isso não está olhar-se a si mesma; está só a projectar os seus conhecimentos naquilo que vê e a traduzir ou a interpretar o que vê, de acordo com a sua experiência, os seus conhecimentos, o seu condicionamento.

Observai isto em vós mesmos, por favor. A mente que responde a um desafio com o conhecimento anteriormente adquirido não está a aprender; está apenas a adicionar ao que já conhece. A mente que aprende, ou se encontra num estado de aprender, está sempre num estado de observação. Penso que estas duas coisas devem ficar bem claras para cada um. Porque aprender é inteiramente diferente de adquirir conhecimentos. O aprender exige que o cérebro funcione no seu nível mais elevado. Mas não se pode aprender, se se quer consegui-lo com uma mente aquisitiva, uma mente que diz, «Vou juntar mais ao que já conheço».

A mente que anda em busca de experiências e as acumula nunca se encontra em estado de aprender. É muito importante compreender isto. Porque aquilo a que se chama o «eu», o «ego» , está sempre em movimento; nunca é estático. Cada pensamento, cada sentimento que já conhecemos, quando o observamos com esse conhecimento adquirido, fica reduzido a um estado estático. Vou explicar isso um pouco mais.

Como sabeis, temos muitas maneiras de sentir. Ao verdes a beleza de um poente, podeis ter imediatamente uma certa reacção. Não sei se já alguma vez olhastes um poente. Ponho em dúvida que o tenhais olhado realmente ou que tenhais, de facto, observado uma árvore. O ramo de uma árvore, a beleza da luz, a frescura das folhas, o movimento de uma folha na aragem - já alguma vez observastes isso? Neste país, a beleza desapareceu. Foi destruída a sensibilidade à beleza, porque os vossos «santos» têm dito que não se deve olhar a beleza. Para vós, a beleza está identificada com o desejo, o desejo de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem, têm-vos dito, há milhares de anos, que não deveis ter desejo. E com o esforço para não se ter desejo, destruiu-se a sensibilidade à beleza, a possibilidade de se sentir encantamento, ao ver-se uma coisa verdadeiramente bela.

Observai-vos por favor. Vede como nossas mentes se tornaram insensíveis. quando sentis prazer, dor uma alegria espontânea por causa de alguma coisa, no momento em que sentis isso, há uma reacção que consiste em dar nome a esse sentimento, no mesmo instante. Vede isto, por favor, observai-o em vós mesmos. Porque se não derdes atenção a tudo isto, quando eu falar sobre a liberdade, não encontrareis nisso qualquer significado. Estou a falar da mente que não dá nome. Quando se tem um sentimento o fixar, como experiência, na memória; e então, no dia seguinte, essa lembrança, que se tornou mecânica, deseja a repetição dessa experiência. Portanto, quando no dia seguinte olhardes o poente, isso já não tem a qualidade daquilo para que olhaste espontaneamente no primeiro dia. Assim, o processo de atribuir um nome a qualquer sentimento, a qualquer observação, impede-nos de olhar.

Já olhastes realmente uma flor? Pode-se olhar uma flor de dois modos: botanicamente ou não botanicamente. Quando olhamos uma flor sob o aspecto botânico, conhecemo-lhe a espécie, a cor, a variedade, conhecemos o que ela é; quando essa interpretação interfere, estamos a observá-la botanicamente; e quando isso acontece, não podemos ver a flor. Observai isto, por favor. Quando dizeis, «É uma rosa. É muito bela», já deixaste de a olhar. Porque identificaste essa rosa com uma coisa a que já tenheis chamado «rosa», e essa identificação com o passado impede-vos de olhar a rosa real que tendes à frente.

Do mesmo modo, se quando vos olhais a vós mesmos, identificais um determinado sentimento, um determinado estado ou uma certa experiência, dando-lhe um nome, identificais-vos com esse sentimento através de um nome que vem da memória, que vem do passado, e ficais portanto incapazes de olhar, de observar, de escutar, de compreender esse sentimento.

E, assim, essa identificação, esse dar nome, esse símbolo que se tornou tão extremamente importante nas nossas vidas, impede-nos de olhar, de sentir mais profundamente, de sentir completamente.

Vejamos o caso de um desses homens a quem chamam «sannyasis». Ele é um símbolo da renúncia ao mundo. O símbolo, o aspecto exterior é que as pessoas respeitam. Para elas, o aspecto exterior é de extraordinária significação; não importa o que esse homem é interiormente. Ele está a ser torturado pelas suas aspirações, pelas suas exigências sexuais, pelas suas complexas lembranças, pelo desejo de se igualar a alguém; esse constante processo de imitação existe nele, e portanto, também, a luta, o conflito, o recalcamento, o controlo, a repressão. Isso não interessa ás pessoas; o que lhes interessa é o símbolo. Do mesmo modo, o nome, a palavra tornou-se um símbolo que nos impede de olhar as coisas com profundidade.

Cada um tem, pois, de estar extremamente vigilante quando se observa a si mesmo.Porque sem se conhecer não pode viver, é um ente morto. Fala-se constantemente de certos livros, lêem-se e repetem-se interminavelmente esses livros - o Guitá, os Upanishads ou qualquer outro livro sem sentido. Compreendeis? Eu disse «qualquer outro livro sem sentido», porque no momento em que repetimos deixámos de o compreender, dissociámo-lo do nosso viver quotidiano real. O que tem importância não é o livro, mas o nosso viver quotidiano, os sentimentos, as ansiedades, as aflições de cada dia e o modo como pensamos. Isso é que temos de conhecer, porque se o não conhecemos, não temos base para nenhum pensamento sensato, para nenhum procedimento racional; e então funcionamos de modo meramente mecânico, ou neuroticamente.

Conhecer-se a si mesmo é a mais árdua tarefa em que cada um se pode empenhar. Podemos ir à lua, fazer tudo o que é possível fazer na vida; mas se não nos conhecermos seremos vazios, embotados, sem inteligência; ainda que exerçamos as funções de primeiro-ministro, de engenheiro altamente qualificado ou de técnico habilíssimo, estamos apenas a funcionar mecanicamente. Assim, precisamos de sentir a importância de nos conhecermos a nós mesmos, a seriedade que isso implica. Não se trata do que outras pessoas tenham dito que somos - o «eu superior», ou o «eu inferior» - esqueçamos tudo o que outros disseram, e observemos as nossas próprias mentes e os nossos corações para, a partir daí, podemos viver.

Conhecer-se a si mesmo, (estar a) conhecer-se, é o presente activo; e o que já aprendemos, o que conhecemos, é o passado. O passado não deve dirigir o presente activo. Quando o faz, cria-se mais conflito. Mas também não se pode rejeitar o passado; ele existe tanto no inconsciente como no consciente. E precisamos do conhecimento. Seria absurdo um cientista pôr de lado todas as coisas que aprendeu, que a ciência acumulou ao longo de séculos, seria absurdo um artista deitar fora o seu conhecimento da preparação e mistura das cores, etc... Mas não deixar o passado interferir no presente activo - isso é que precisamos compreender.

Cada um tem de olhar com um olhar atento, com uma sensibilidade, uma mente, um cérebro intensamente activos. E o cérebro deixa de estar intensamente activo, no momento a que se dá nome ao que se está a observar, no momento em que se lhe atribui um símbolo. O homem que se está a estudar a si mesmo, que se está a observar, não está a interpretar, não está a comparar, está apenas a observar. É por isso que digo: quando observais uma flor, observai-a, apenas. Escutai aqueles corvos que estão a crocitar antes de irem dormir, escutai simplesmente, sem resistência, sem qualquer desejo de escutar o «orador» e de resistir ao barulho dos corvos; escutai tudo. Então graças a esse escutar, sereis capazes de dar atenção ao que desejais ouvir. Mas se resisitirdes ai barulho dos corvos, ficareis em conflito. E, assim, não tereis energia para escutar.

Observai-vos portanto, a vós mesmos. Essa observação é absolutamente necessária, porque, se não nos conhecermos a nós mesmos, não se revelará o que verdadeiramente somos. Os políticos, os «gurus», os intérpretes tornam as pessoas insinceras, porque essa influência não as deixa conhecer os seus próprios pensamentos, o que realmente são. Só quando nos conhecemos, somos capazes de funcionar como ser total, e não de modo fragmentário.

Assim conhecer-se a si mesmo é observar-se. E para cada um se observar, tem de haver liberdade, que não seja uma reacção. Tendes de observar, de escutar livremente aqueles corvos, não estareis escutando quem vos está a falar. Vede, por favor, a importância disto: no observar, no olhar para vós mesmos, toda a forma de resistência, como o dar nome - o que significa o passado actuar sobre o presente - destrói, impede a observação.

Assim, por meio da observação estamos a aprender a aprender constantemente. E, para aprender, precisamos de uma profunda sensibilidade, de um cérebro que funcione inteiramente no seu nível mais elevado. Quando o cérebro funciona nesse nível, não há tempo para dar nome ao que se está a observar; há então acção imediata - é disso que vamos tratar.

Para quase todos nós, a acção deriva de uma ideia, de uma formula, de um conceito, de um ideal. Temos um ideal e tentamos aproximar dele a nossa acção, para nos ajustarmos ao ideal. Vede o que tem acontecido neste país - tudo isso provavelmente vos é muito familiar. Tendes pregado, praticado e proclamado a não-violência. Agora, é a violência que está na moda. Esqueceu-se tudo o que tem sido dito sobre a não-violência. Tem-se agora o exército, o serviço militar, o recrutamento de todos os estudantes - sabeis o que se passa. E aceitais tudo isso com a mesma facilidade com que aceitais a não violência porque vos convinha; agora aceitais com a mesma facilidade a violência porque vos convém. Por isso o vosso ideal da não-violência não tem nenhum significado.

E todos os nossos ideais, por mais sublimes, sedutores e belos que seja, nada significam. Porque criam conflito entre o que é e «o que deveria ser» .O importante é o que é e não «o que deveria ser». Compreendei, o que é importante é o que é. As pessoas são violentas, cruéis, rancorosas, têm aversões e protegem a sua «segurança», a qualquer preço - o facto é este e não a sua não-violência, «ahimsa» - o que é perfeitamente absurdo.

Quando a pessoa observa o que é, sem o ideal - que é um afastamento de o que é, um modo de fugir de o que é - então, ou diz, «Bem, aceito o que é, para viver com isso», ou a pessoa tem uma acção directa sobre esse facto; ou , ainda, é o facto que tem uma acção directa sobre a pessoa. O importante é ser-se capaz de observar realmente o que é - quer se sinta cólera, desejo ou avidez disto ou daquilo, etc. Sabemos o que os seres humanos são interiormente. Observar tudo isso, sem lhe dar nome, sem dizer, «Estou irritado, não devo estar irritado», mas apenas observar o facto; saber o que ele significa, a profundidade, o extraordinário sentimento que está por trás de todos esses movimentos subtis, secretos. Se observarmos assim, veremos que devido a essa observação, há liberdade, e devido a essa Liberdade, há acção imediata.

Porque acção significa acção no presente activo. E o não«amanhã». Acção quer dizer presente activo. E o presente activo só pode actuar no presente, quando não existe todo o imenso fardo do medo, do sentimento de culpa, da ansiedade. É pois muito importante compreender a totalidade da psique, a totalidade da nossa consciência. Como já antes apontei, esta tarde, quando se observa, pode-se ver que a mente - não só o cérebro, mas a toltalidade da mente - se esvazia.

Sabeis o que é o espaço? Há espaço - distância - entre vós e a árvore, há espaço entre vós e o corvo, e o barulho que ele está a fazer, há espaço entre vós e as estrelas - espaço, distância, que envolve tempo. Ora quando vos observais a vós mesmos, é preciso haver «espaço» entre» vós e o que observais: geralmente não temos esse espaço; enchemo-lo por completo com as nossas opiniões, os nossos juízos. Mas é preciso haver espaço. A mente tem de ter espaço dentro de si mesma. Só nesse espaço no interior da mente pode haver uma mutação, pode nascer uma coisa nova. Esse espaço na mente existe, de facto quando ela é inocente.

A mente inocente tem espaço, como a criança no ventre materno. Mas a mente que está completamente cheia, que está entorpecida pelo seus desesperos, pelos seus medos, alegrias, prazeres - essa mente nunca está vazia; e por isso para ela nada existe que seja novo, nada que seja novo pode surgir. Só nesse vazio pode ter lugar uma coisa nova, uma mutação. Esse vazio, esse espaço é liberdade. E para que exista esse espaço, temos de compreender toda a estrutura, consciente e inconsciente, de nós mesmos.

Quase todos vivemos, no nível consciente, de modo muito superficial, porque geralmente nos preenchemos com os nossos empregos, com a família, com as nossas necessidades imediatas. Vivemos na superfície. A sociedade, a «educação» que recebemos, o mundo - todos exigem que se viva na superfície. E por baixo dela atingindo grande profundidade, estão as nossas tradições, as nossas esperanças, os nossos medos, os nossos deuses. Toda a existência obscura do ser de cada um está ali - e cada um tem também de compreender isso. Assim, quando a mente deseja compreender o inconsciente , a parte consciente tem de estar quieta, por algum tempo ou durante o tempo todo; e só então o inconsciente começa a contar a sua história. Para se compreender o inconsciente , ou se adopta o processo de o analisar, indefinidamente, ou se atravessa, num momento, o inconsciente. É o que fazemos quando percebemos imediatamente, sem lhe dar nome, toda a actividade de nós mesmos.

A liberdade, pois, não é uma reacção - é um estado de ser. É um sentir. Cada um tem de libertar-se, tem de ser livre, mesmo nas pequenas coisas - o domínio do marido sobre a mulher, ou da mulher sobre o marido, as ambições, avidez, a inveja. Quando cada um passa, num momento, através de tudo isso, sem se dar tempo para argumentar, então verá que observar, apenas, sem analise, sem «pesquisas» introspectivas, observar - ver as coisas com o são, sem autocompaixão, sem desejo de mudar, observar, apenas - é ter aquele espaço.

E no momento em que há aquele espaço intocado pela sociedade, então, nesse estado, acontece uma mutação. E precisamos de uma mutação neste mundo, porque é dessa mutação que nasce o *indivíduo. E só o indivíduo pode fazer alguma neste mundo, para dar origem a uma revolução total, uma mudança, uma transformação completa. O que é necessário neste mundo, presentemente, é o indivíduo que nasce daquele vazio.

Já ouvistes um tambor a ser percurtido repetidamente? o homem que o toca pode produzir qualquer som, e esse som é claro, exacto, vivo, penetrante, porque o tambor está vazio. Se estivesse cheio, não poderia produzir um som claro, nítido, belo.
Do mesmo modo, quando, quando a mente tem espaço, tem essa extraordinária qualidade do vazio, então, nesse estado, ela actua; e a sua acção é fruto da mutação total. Só essa mente pode compreender o que está para além dela.

16 de Fevereiro de 1964

*Noutras obras, Krishnamurti faz notar que o indivíduo (aquele que não está dividido, fragmentado) é o ser humano que sente e vive a vida como um todo. Daí um sentido de «responsabilidade total pela humanidade inteira - responsabilidade que é amor. só ela pode transformar radicalmente o estado da sociedade» ( Letters to the Schools, pags. 25 .Ed Krishnamurti Foundation, england,1981).

Jiddu Krishnamurti - 1985

Jiddu Krishnamurti - 1985

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

para ler de cá para lá

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uma mente livre...
uma ausência de centro...
uma entrega ao que é!
não há o pensamento que institui o pensador
Olho assim...

terça-feira, 22 de setembro de 2009














a vida é um espelho

somos o que somos, não há teias de aranha nem buracos escuros, há nós mesmos, e mais de nós mesmos,observo o presente agora, observem o presente agora, o inconsciente dá-nos imagens, quando omitimos actividade, são passado ou podem ser futuro, ambas estão condicionadas ao tempo psicológico, observamos porque fazemos parte de uma toda história humana e não só uma parte.
Não se trata de concordar ou discordar, se é correcto ou incorrecto, bom ou mau, trata-se de observar simplesmente, o que é.
"Não sei se me compreendeis" mas é mto importante...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

You are the world

Krishnamurti - The Real Revolution - Part 1 of 2

Krishnamurti - The Real Revolution - Part 2 of 2

acreditar só por si é uma mentira...só porque não é viva!

Você acredita em Deus?
Você acredita que vai para o céu?
Você acredita que será salvo?
Você acredita que nós homens vamos conseguir mudar?

ou observa essa transformação na realidade e vê com toda a clareza...quem decide e o quê...

sob uma capa de crenças!...?

enquanto o homem acreditar nunca poderá mudar...o homem tem de cessar de acreditar para passar a olhar para si mesmo e não para as suas crenças!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Krishnamurti...pode ter pensado...muita coisas e dito muito mais...mas a maneira como ele observa a composição da nossa realidade...o nosso mundo... sem separar... premitindo...que as coisas tomem o seu exacto lugar...seja ele qual for, meu irmão! Querendo com isso que todos, por si mesmos cheguem mais profundamente as suas proprias vivências... e consciências! Sabendo que para transformar o que é...o que é tem que ser o que é...pois não sendo nunca poderá ser transformado!
É neste ponto...onde sinto uma pessoa inteira neste Homem Krishnamurti!

Inward Flowering - J. Krishnamurti Online

Inward Flowering - J. Krishnamurti Online

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Krishnamurti - Transformar lo que es