segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Essência Do Ensinamento de K.

A pedido de Mary Lutyens, Krishnamurti escreveu, em Outubro de 1981, uma declaração no seu livro The Years of Fulfilment, o segundo volume da sua biografia de Krishnamurti. Ao reler a declaração em 1983, Krishnamurti fez algumas alterações aqui incluídas. Esta é a declaração final e completa.

A essência do ensinamento de Krishnamurti está contida na declaração que fez em 1929 quando disse ´A Verdade é uma terra sem caminhos`. O homem não chegará a ela através de organização alguma, através de qualquer crença, através qualquer dogma, sacerdote ou ritual, nem através do conhecimento filosófico ou da técnica psicológica.
Ele tem de descobri-la através do espelho das relações, através da compreensão do conteúdo da sua própria mente, através da observação e não pela analise intelectual ou dissecação introspectiva. O homem tem construído imagens em si próprio, como uma barreira de segurança - imagens religiosas, políticas, pessoais.
Estas imagens manifestam-se como símbolos, ideias, crenças. O fardo dessas imagens domina o pensamento do homem , as suas relações e a sua vida diária. Tais imagens são a causa dos nossos problemas, pois elas dividem os homens. A sua percepção da vida é formada pelos conceitos já estabelecidos na sua mente. O conteúdo de sua consciência é a sua completa existência. Este conteúdo é comum a toda a humanidade.
A individualidade é o nome, é a forma e a cultura superficial que o homem recolhe da tradição e do ambiente. A singularidade do homem não se encontra no superficial, mas sim na completa libertação em relação ao conteúdo da sua consciência, que é comum a toda a humanidade. Assim, ele não é um indivíduo.
A liberdade não é uma reacção; a liberdade não é uma escolha. É pretensão do homem pensar que, por poder escolher, ele é livre. Liberdade é observação pura sem direcção, sem medo de castigo ou recompensa. A liberdade não tem motivo; a liberdade não se acha no fim da evolução do homem, mas sim no primeiro passo da sua existência. Na observação começamos a descobrir a falta de liberdade. A liberdade reside na percepção, sem escolha, da nossa existência e actividade quotidianas.
O pensamento é tempo. O pensamento nasce da experiência e do conhecimento, que são inseparáveis do tempo e do passado. O tempo é inimigo psicológico do homem. A nossa acção baseia-se no conhecimento, portanto, no tempo e, deste modo, o homem é sempre escravo do passado. O pensamento é sempre limitado e, por conseguinte, vivemos em constante conflito e luta. Não existe evolução psicológica.
Quando o homem se tornar consciente do movimento dos seus próprios pensamentos ele verá a divisão entre o pensador e o pensamento, entre o observador e a coisa observada, entre aquele que experimenta e a experiência. Ele descobrirá que esta divisão é uma ilusão. Só então haverá observação pura que é percepção (insight) sem qualquer sombra do passado ou do tempo. Esta percepção intemporal (insight) produz uma profunda e radical mutação na mente.
A negação total é a essência do positivo. Só quando há negação de todas as coisas que o pensamento produz psicologicamente, é que existe o amor, que é compaixão e inteligência.

J. KRISHNAMURTI : Immortality. Part 1 (of 6).

Krishnamurti : Role of A Flower. Part 1. (of 3)

Krishnamurti - Is there security, psychologically? - 1 of 4

sábado, 10 de outubro de 2009

KRISHNAMURTI : Dialogue on Death - Part 11. (1 de 12)

Remember what Krishnamurti said; Doubt Everything, that incluides him.

ADENTRUM K.


LIVROS DE K. TRADUZIDOS E PUBLICADOS EM PORTUGAL

O MUNDO SOMOS NÓS – Editora Livros Horizonte

CARTAS ÀS ESCOLAS – Editora Livros Horizonte

O DESPERTAR DA SENSIBILIDADE – Editorial Estampa

O VOO DA ÁGUIA – Editorial Estampa

A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM – Edições Itau

MEDITAÇÕES – Editorial Presença

APRENDER A VIVER – Livros de Vida Editores

MEDITAÇÃO-A LUZ DENTRO DE NÓS – Editora Dinalivro

A VIDA – Editorial Presença

SERÁ QUE A HUMANIDADE PODE MUDAR? – Editora Dinalivro

O SENTIDO DA LIBERDADE – Editorial Presença

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(AlGO DO) MATERIAL DE K. NA INTERNET

NUCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI - http://www.kfoundation.org/portugal/

THE ONLINE REPOSITORY OF AUTHENTIC TEACHING OF J. KRISHNAMURTI -http://www.jkrishnamurti.org/

JIDDU KRISHNAMURTI - http://www.jiddu-krishnamurti.net/#

SOBRE A MENSAGEM DE KRISHNAMURTI - http://www.cuidardoser.com.br/coletanea-krishnamurti.htm

KRISHNAMURTI & THE ART OF AWAKENING IN THE MOMENT. - http://www.kinfonet.org/

KRISHNAMURTI AND EDUCATION -http://krishnamurti-and-education.org/

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Observar, simplesmente, exercício fundamental, que não significa concordar ou discordar, mas deixa-los, ocupar o seu exacto lugar.

Não basta escrever, temos caminhar na direcção... observar atentamente, o medo, a segurança, o sofrimento, a crença, a vida e a morte, o amor, a paixão e o próprio entendimento das coisas...

o encontro com todos é um caminho sozinho, que não premite desvios, sob pena de acomodações, por tal um tem que ser livre interiormente

KRISHNAMURTI : The Last Talks - Talk 3. (Part 1 of 7).

KRISHNAMURTI : The Last Talks - Talk 2. (Part 1 of 7).

KRISHNAMURTI : The Last Talks - Talk 1. (Part 1 of 8).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Unity of Human Beings

Há grande beleza no acto de observar, no ver as coisas como são, psicológica e interiormente; isso não significa aceitá-las, nem rejeitar o que é, ou esforçar-se por modificá-lo - a propria percepção do facto psicológico, do que é, produz a sua mutação. Mas precisamos de saber a arte de olhar, que não é introspectiva ou analítica; consiste simplesmente em observar sem qualquer escolha.

in Voo Da Águia

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

- O que fazer com nada?

[as expressões em itálico são genuinas de Krishnamurti]

Krishnamurti fala de uma realidade que está por baixo ou além da aparência à superfície da nossa realidade subjectiva consensual. Ele refere-se muitas vezes a essa realidade como o 'outro' ou o 'desconhecido', e algumas vezes também como verdade, amor ou liberdade. Esta verdadeira natureza das coisas - como apresentada nos seus diários publicados - é descrita como algo 'completamente diferente', como alguma coisa muito extraordinária. Apesar da sua 'outra mundanidade', Krishnamurti, contudo, mantém que todo o cérebro humano é capaz de encontrar ou de contactar esta realidade inefável - ainda que, de certa maneira, isso seja desde sempre extremamente intrigante para nós.

Quaisquer tentativas de uma clarificação mais profunda são constantemente cortadas pela insistência de Krishnamurti de que não pode haver tal coisa como 'orientação espiritual'. Krishnamurti desencoraja a inclinação natural da mente de progredir na compreensão crescente desta realidade mística. De facto, todo o grosso dos ensinamentos de Krishnamurti pode ser interpretado como uma chamada de atenção cerrada para o facto de estarmos sozinhos e de que não pode haver ajuda de ninguém nem nada nestas questões.

O que é que se verifica quando ajudamos alguém psicologicamente? A ajuda normalmente implica trazer ao de cima certas falhas no padrão de raciocínio do outro - sendo o objectivo produzir uma outra visão que se considera ser mais saudável, mais sã, mais apropriada, etc. O sucesso desta tentativa depende tanto da capacidade de comunicação daquele que ajuda como no anuir daquele que recebe.

Embora o objectivo expresso de Krishnamurti fosse tornar o homem 'absolutamente e incondicionalmente livre', contudo, ele afirmou repetidas vezes que não nos podia ajudar a tornar-nos livres. Ajuda é orientação; implica directa influência sobre o raciocínio, muitas vezes através da substituição de um conjunto de ideias por outro. 'A verdade, ou o que quiserem, não pode ser descoberta pela mente; o pensamento não pode ir atrás dela'. Muitas vezes, culpa-se Krishnamurti por falhar na sua missão, mas a substância das razões invocadas contra ele, raramente levam em conta que a sua intenção nunca foi mudar o que nós pensamos, ou mesmo como nós pensamos. Estes conceitos de 'tornar-se', 'levar a' e 'mudança' são antagónicos à sua visão de liberdade incondicional, que para ele é de uma ordem completamente diferente.

Ver que a nossa realidade subjectiva não tem relação com esta verdade, pode fazer-nos procurar uma apreciação 'objectiva' ou impessoal de 'o que é'. De facto, o estilo das discussões de Krishnamurti, o seu modo´crítico de examinar, encoraja-nos a cultivar uma mente séria e inquiridora, que, dentro do possível, esteja despida de julgamento pessoal, de opinião ou preferência. O diálogo inspirado em Krishnamurti é muitas vezes marcado pelo sentimento de que refinando as capacidades investigadoras da mente acabará por resultar na compreensão em quinta essência que abrirá a porta à verdade.
Contudo, Krishnamurti até mesmo a ideia de 'compreensão objectiva' rejeita, como tranpolim para a verdade. A compreensão requer colocar a questão em causa na engrenagem da línguagem, o exprimível. Esta circunscrição, por muito verdadeira e precisa que seja, não é a coisa descrita. É experiência comum que a satisfação que acompanha uma compreensão intelectual ou emocional não perdura.

Os ensinamentos de Krishnamurti não apontam a verdade. Antes, ele considera que qualquer coisa que seja apontada não pode ser a coisa verdadeira, mas apenas uma descrição ou testemunho da verdade. A determinação de Krishnamurti de não ser elevado ao nível de autoridade não é falsa modéstia, mas tão só uma afirmação de facto - nomeadamente, que 'a verdade' não se encontra nem no seu ensinamento nem em nenhum outro. Neste sentido, o ensinamento de Krishnamurti não é diferente de nenhum outro e deve ser compreendido por aquilo que é - uma descrição com base na linguagem.

Tomando isto em conta, a tentativa de encurralar a verdade no campo da experiência pode ser comparada à conhecida anedota sobre uma pessoa que perde as chaves à noite e começa a procurá-las junto do lampião de rua mais próximo. Contudo, apesar da natureza avassaladoramente 'desconstrutiva' dos seus ensinamentos, Krishnamurti deixa-nos uma importante chave, nomeadamente, que o desconhecido não se pode tornar conhecível.

Como lidar com esta aparente contradição no ensinamento de Krishnamurti de que a nossa consciência pode ser tocada pela verdade e ao mesmo tempo que a verdade não é conhecível, de que pode haver 'observação' sem um observador? O que achamos é que é incrivelmente difícil deixar o desconhecido desconhecido, não lhe dar atributos, não imaginar se é excitante ou temível. Ora vimos com razões quanto a por que é que o que Krishnamurti alude é impossível ou, alternativamente, pomo-nos a adivinhar ao acaso por que é que tem que ser fazível. Em ambos os casos, a nossa mente, às escuras e parte da escuridão, opera dentro dos seus próprios limites - talvez, se tivermos sorte, refreada pela lógica. Krishnamurti propõe que a nossa experiência de estarmos perdidos em contradições, sentindo que não há saída e mesmo os próprios contrários do 'conhecido' e do 'desconhecido' só são aplicáveis no contexto do pensamento e da linguagem.

'A mente não é o nosso último recurso para resolvermos os nossos problemas; pelo contrário, é quem produz os nossos problemas'. Desta forma, é preocupação central de Krishnamurti pôr a nu as artimanhas do pensamento. Para ele, o nosso dilema não advém apenas da tendência da mente de ficar prisioneira de ilusões. Até a cuidadosa percepção de 'o que é', lidando com factos em vez de permitir o raciocínio do desejo é em última instância ' agregadora'. Isto vai contra a cultura do questionar que procura deixar cair uma ilusão atrás da outra até que nada mais reste senão a verdade. Ver 'o que é' é apenas metade da história, na medida em que os factos nunca ficam sozinhos uma vez chegados ao cérebro. Mesmo no caso da relativamente não distorcida percepção de um facto, segue-se imediatamente uma avaliação que na maior parte é baseada na relação do facto com aquele que percepciona. Nós 'agregamo-nos' à verdade colando a nossa comparação pessoal e o nosso julgamento e ao fazê-lo a verdade não nos liberta, até nos sobrecarrega.

Conforme diz Krishnamurti repetidas vezes, 'isto' - significando pensamento - não pode ter nenhuma relação com 'aquilo' - significando a verdade, o desconhecido. Ainda que a verdade não possa ser afunilada com o pensamento ou a linguagem deve, por definição, conter tudo, incluindo a sua própria descrição e distorção. O que significará então estar em 'contacto' com a verdade, 'ir de encontro à verdade', como ele diz? Será tal coisa possível?

'A nossa consciência é um processo total, embora possa ter contradições em si mesma'. Nomear, interpretar, experimentar, são mais acções de fragmentos do que o movimento da totalidade da consciência. Perguntar como ultrapassar a divisão e integrar todos os fragmentos será complicar uma complicação. Nenhuma força pode fundir aquilo que não 'quer' unir-se.

Então, o que nos resta? 'Estamos a falar de uma coisa completamente diferente, não estamos? Tendo estado em todo o lado, tendo tentado tudo, a única direcção que resta será a não direcção, o sossego absoluto. 'Toma apenas consciência da completa necessidade e importância de uma mente calma'. De facto, não há mais nada que possamos fazer. Tão simples como Krishnamurti o faz parecer, vemos de facto a necessidade de uma mente calma ou aceitámos que é uma coisa por que vale a pena lutar?

A luta produz resultados que são tão voláteis e mutáveis como o processo através dos quais foi adquirida. O único factor estável e imutável e que também pode ser universalmente aplicado a toda a consciência humana é a necessidade de sossego. A necessidade de sossego põe uma enorme pressão no cérebro - pois isto é um problema diferente de qualquer outro, um problema que requer uma abordagem completamente nova.

'Sentir e nomear' é uma ocorrência simultânea para quase todos nós, quer dizer, a percepção está inextricavelmente ligada a uma espécie de narrativa interpretativa sobre os dados recebidos. Parece que esta sequência está estabelecida no nosso cérebro da mesma forma que certas operações sensoriais pre-conscientes. O manto de frases que enrolamos à volta da nossa percepção torna-se a experiência em que confiamos e que lembramos. O processo de nomeação é automatizado, inconsciente e só é reconhecido após o facto.

Qualquer espécie de resposta ou reacção ao que é visto - quer seja emocional ou racional - é um sinal infalível de que os dados sofreram processos cerebrais mais elevados envolvendo a memória e a linguagem.

Poderá realmente haver, como Krishnamurti sugere, uma lacuna entre o ver e a verbalização, entre o sentir e o nomear? Não no sentido de um intervalo de tempo, mas talvez mais no sentido de amplidão. A amplidão da atenção sem interferências.

É opinião dos escritores do editorial que Krishnamurti é um exemplo dos nossos dias do ser humano verdadeiramente livre. Estes editoriais reflectem o nosso interesse no homem mais extraordinário e no que ele tem para nos dizer. A intenção aqui não é nem representar nem re-apresentar Krishnamurti, mas simplesmente prosseguir no envolvimento com os seus trabalhos. Desnecessário será dizer que a natureza fascinante e intrincada dos escritos de Krishnamurti exige que sejam lidos cuidadosamente e em primeira-mão.

SOBRE A CRENÇA

Pergunta : Acreditar em Deus tem sido um poderoso incentivo para melhorar a vida. O senhor rejeita Deus, porquê? Por que não tenta restabelecer a fé do homem na ideia de Deus?

Krishnamurti : Olhemos para o problema de um modo aberto e inteligente. Eu não rejeito Deus – isso seria demasiado estúpido. Só o homem que não conhece a realidade utiliza palavras sem significado. Aquele que diz que sabe, não sabe; aquele que experiencia a realidade a todo o momento não tem meios para comunicar essa realidade.

A crença é a negação da Verdade; a crença impede a Verdade; acreditar em Deus é não encontrar Deus. Nem o crente nem o não-crente encontram Deus; porque a Verdade é o desconhecido, e acreditar ou não no desconhecido é uma simples projecção pessoal e portanto não é real. Sei que você é crente, e sei também que isso tem pouco significado na sua vida. Há muita gente crente; milhões acreditam em Deus e nisso obtêm consolo. Primeiro que tudo, por que é crente? É crente porque isso lhe dá satisfação, consolo, esperança e, como você afirma, dá significado à vida. De facto, o seu acreditar tem muito pouco significado, porque acredita e explora os outros, acredita e mata, acredita num Deus universal e aceita que os homens se matem uns aos outros. O homem rico também acredita em Deus, ele explora sem piedade, acumula riqueza, e depois constrói um templo ou torna-se filantropo.

Os homens que largaram a bomba atómica em Hiroshima disseram que Deus estava com eles; aqueles que voaram de Inglaterra para destruir a Alemanha afirmavam que Deus era o seu co-piloto. Os ditadores, os primeiros-ministros, os generais, os presidentes, todos eles falam de Deus, têm imensa fé em Deus. E estarão eles a fazer o que deviam fazer, construindo uma vida melhor para os seres humanos? As pessoas que afirmam acreditar em Deus já destruíram metade do mundo, e este planeta está uma completa desgraça. Através da intolerância religiosa criam-se divisões entre os povos, os que acreditam e os que não acreditam, o que conduz a guerras religiosas. Isso demonstra como as nossas mentes estão extraordinariamente politizadas.
Será que acreditar em Deus é “um poderoso incentivo para uma vida melhor”? Por que queremos nós um incentivo para viver melhor? Claro que esse incentivo deve ser o nosso próprio desejo de viver com higiene e com simplicidade, não é assim? Se procuramos um incentivo, é porque não estamos interessados em tornar a vida melhor para todos, estamos apenas interessados no nosso incentivo, que é diferente do de outra pessoa – e acabaremos por lutar por causa de um incentivo. Se vivermos em paz uns com os outros, não porque acreditamos em Deus mas porque somos seres humanos, então partilharemos todos os meios de produção com o objectivo de produzir coisas para toda a gente. Devido à falta de inteligência, aceitamos a ideia de uma super-inteligência a que chamamos “Deus”; mas esse “Deus” não nos vai proporcionar uma vida melhor. O que conduz a uma vida melhor é a inteligência; e não pode existir inteligência se houver crença, se houver divisões sociais, se os meios de produção estiverem nas mãos de poucos indivíduos, se existirem nações isoladas e governos soberanos. Tudo isto indica falta de inteligência e é a falta de inteligência que está a impedir uma vida melhor, e não a descrença em Deus.

Todos nós acreditamos de modos diferentes, mas a crença não tem qualquer realidade. A realidade é aquilo que cada um é, o que cada um faz, pensa, e acreditar em Deus é um mero escape para a nossa monótona, estúpida e cruel existência. Mais, a crença invariavelmente divide as pessoas: há o hindu, o budista, o cristão, o comunista, o socialista, o capitalista, e tudo o resto. A crença e a ideia dividem; nunca levam as pessoas a estarem unidas. Algumas pessoas podem juntar-se e formar um grupo; mas esse grupo acaba por se opor a outro grupo. Ideias e crenças nunca são unificadoras; pelo contrário, elas são separativas, desintegradoras e destrutivas. Portanto, a crença em Deus está de facto a espalhar a infelicidade no mundo; embora essa crença nos traga consolo momentâneo, ela na realidade trouxe mais sofrimento e destruição na forma de guerras, fome, divisão de classes e a impiedosa acção de indivíduos que se puseram à parte. Assim, a crença não tem validade alguma. Se acreditássemos realmente em Deus, se isso fosse uma experiência real para nós, então haveria um sorriso na nossa face; e não destruiríamos os outros seres humanos.

O que é a Realidade? O que é Deus? Deus não é a palavra, a palavra não é a Realidade. Para conhecer isso que é imensurável, que não está no tempo, a mente tem de estar liberta do tempo, quer dizer, a mente tem de se libertar de todo o pensamento, de todas as ideias acerca de Deus. O que sabemos nós sobre Deus ou a Verdade? Não sabemos realmente nada sobre essa Realidade. Tudo o que conhecemos são palavras, são experiências de outros ou alguns momentos de experiências pessoais. Claro que isso não nos dá a conhecer Deus, não é a Verdade, isso não está para além do tempo. Para se conhecer isso que está para além do tempo, temos de compreender o processo do tempo, tempo sendo pensamento, sendo o processo de “vir a ser”, sendo acumulação de conhecimentos. Isso é tudo o que está por detrás da mente; a mente, em si, é esse fundo (background), é o consciente e o inconsciente, é o colectivo e o individual. Assim, a mente tem de estar livre do conhecido, isto é, ela tem de estar completamente em silêncio, não forçada ao silêncio. A mente que atinge o silêncio como um resultado, como o produto de determinada acção, prática ou disciplina, não é uma mente em silêncio. A mente que é forçada, controlada, moldada, posta dentro de limites e mantida quieta, não é uma mente em paz. Podemos ter sucesso por algum tempo em forçar a mente a ser superficialmente silenciosa, mas tal mente não é uma mente serena. A serenidade só acontece quando compreendemos todo o processo do pensamento, porque compreender esse processo é acabar com ele, e na cessação do processo do pensamento está o começo do silêncio.

Só quando a mente está completamente em silêncio, não apenas a um nível superficial mas a um nível profundo da consciência – só então o desconhecido pode manifestar-se. O desconhecido não é algo para ser experimentado pela mente; apenas o silêncio, e só o silêncio pode ser experienciado. Se a mente experimenta o silêncio, é porque está simplesmente a projectar os seus próprios desejos, e uma tal mente não está em silêncio; enquanto a mente não estiver em silêncio, enquanto o pensamento sob qualquer forma, consciente ou inconsciente, estiver em movimento, não poderá haver silêncio. Silêncio é libertação do passado, dos conhecimentos, de memórias conscientes e inconscientes; quando a mente está em completo silêncio, não em funcionamento, quando há silêncio que não é produto do esforço, então o Intemporal, o Eterno dá-se a mostrar. Esse estado não é um estado para lembrar – não há qualquer entidade a recordá-lo, a experimentá-lo.

Portanto, Deus, a Verdade, chamemos-lhe o que quisermos, é algo que se manifesta a todo o momento, e isso só acontece num estado de liberdade e de espontaneidade, não quando a mente é disciplinada de acordo com um padrão. Deus não é uma coisa da mente, não vem através da autoprojecção; só acontece quando há virtude, que é liberdade. Virtude é enfrentar o facto de o que é, e enfrentar o facto gera um estado de bênção. Quando a mente está nesse estado de profunda alegria, em paz, sem qualquer movimento, sem a projecção consciente ou inconsciente do pensamento, – só então o Eterno se manifesta.

in A Primeira e Última Liberdade

A ACTIVIDADE EGOCÊNTRICA

QUASE TODOS NÓS se apercebem de que todas as formas de persuasão, todas as espécies de estímulos nos têm sido oferecidos para resistir às actividades egocêntricas. As religiões, por meio de promessas, por meio do medo do inferno, através de todas as formas de condenação, têm tentado diferentes maneiras de dissuadir as pessoas desta constante actividade que nasce do centro do “eu”. Como estas não deram resultado, as organizações políticas chamaram isso a seu cargo. E de novo tentaram persuadir as pessoas; aí residia a última esperança da utopia.

Todas as formas de legislação, das mais limitadas às mais extremas, incluindo campos de concentração, têm sido usadas e postas em vigor contra todas as formas de resistência. Apesar disso continuamos na nossa actividade egocêntrica – a única espécie de acção que parecemos conhecer. Se pensarmos de facto sobre isto tentamos modificar-nos; se damos conta dessa actividade, tentamos mudar essa tendência, mas fundamentalmente, profundamente, não há qualquer transformação, não há um findar radical dessa actividade. As pessoas sérias apercebem-se disto e também se apercebem de que só quando cessa essa actividade do centro, e só então, pode haver felicidade.

Quase todos nós não têm dúvidas de que a actividade egocêntrica é natural e que a acção que dela resulta, e que é inevitável, só pode ser modificada, moldada e controlada. Ora, aqueles que são um pouco mais sérios, mais reflectidos, e não digo sérios – porque (pensam) que a “sinceridade” é o caminho da auto-ilusão – têm de descobrir, dando-se conta deste extraordinário processo total da actividade egocêntrica, se poderemos transcendê-la.

Para compreendermos o que é esta actividade egocêntrica, obviamente temos de a examinar, de a olhar, temos de aperceber-nos do processo total. Se formos capazes de nos apercebermos dela, há então a possibilidade de a dissolver; mas aperceber-nos dela requer uma certa compreensão, uma certa intenção de a encarar como ela é, sem interpretar, sem modificar, sem a condenar. Temos de dar-nos conta do que estamos a fazer com toda a actividade que brota desse estado egocêntrico; temos de estar conscientes dela. Uma das nossas primeiras dificuldades é que no momento em que estamos conscientes dessa actividade, queremos moldá-la, controlá-la, queremos condená-la ou modificá-la, assim raramente somos capazes de a olhar directamente. E quando alguns de nós o fazem, muito poucos são capazes de saber o que fazer.

Compreendemos que essas actividades egocêntricas são prejudiciais, destrutivas, e que todas as formas de identificação – com um país, com um grupo determinado, com um desejo particular, a busca de um resultado nesta vida ou depois da morte, a glorificação de uma ideia, seguir um exemplo, cultivar a “virtude”, etc. – é essencialmente a actividade de uma pessoa egocêntrica. Toda a nossa relação com a natureza, com as pessoas, com as ideias, são resultado dessa actividade. Sabendo isto, o que se há-de fazer? Toda essa actividade deve espontaneamente terminar – não de modo auto-imposto, não influenciado, não guiado por alguém.
Quase todos têm consciência de que esta actividade egocêntrica cria malefícios e caos, mas só estamos conscientes disso em certas direcções. Ou o observamos nos outros e ignoramos as nossas próprias actividades, ou apercebendo-nos, na relação com os outros, da nossa própria actividade egocêntrica, queremos transformá-la, queremos encontrar um substituto, queremos transcendê-la. Antes de podermos lidar com ela, precisamos de saber como nasce este processo. Para compreendermos alguma coisa temos de ser capazes de a olhar; e para a olhar precisamos de conhecer as suas próprias actividades em diferentes níveis, tanto conscientes como inconscientes – as directivas conscientes e também os movimentos egocêntricos dos nossos motivos e intenções inconscientes.

Só estou consciente desta actividade do “eu” quando estou em oposição, quando a consciência é contrariada, quando o “eu” está desejoso de alcançar um resultado. Não é assim? Ou, então, estou consciente desse centro quando o prazer chega ao fim e desejo ter mais prazer; então, há resistência e um propositado moldar da mente para um fim determinado que me dará satisfação; apercebo-me de mim mesmo e das minhas actividades quando quero “vir a ser” virtuoso conscientemente. É evidente que uma pessoa que quer tornar-se “virtuoso” conscientemente não é virtuosa. Não podemos cultivar a humildade, e essa é a beleza da humildade.

Este processo egocêntrico é resultante do tempo. Enquanto este centro de actividade existe, em qualquer direcção, consciente ou inconsciente, há o movimento do tempo (psicológico) e eu estou consciente do passado e do presente, em conjunção com o futuro. A actividade egocêntrica do “eu” é um processo de tempo. É a memória que dá continuidade à actividade do centro, que é o “eu”. Se nos observarmos a nós mesmos e nos apercebermos deste centro de actividade, veremos que ele é só o processo do tempo, da memória, de experienciar e traduzir todas as experiências de acordo com a memória; veremos também que essa actividade do “eu” é (re)conhecimento, o qual é igualmente um processo da mente.

Será que a mente será capaz de ficar liberta de tudo isto? Talvez seja possível em raros momentos; pode acontecer a quase todos nós quando realizamos um acto inconsciente, não intencional, sem um objectivo determinado. Mas será possível para a mente estar sempre completamente livre da actividade egocêntrica? É uma pergunta importante a fazer a nós mesmos porque nesse próprio perguntar, encontraremos a resposta. Se nos dermos conta do processo total desta actividade egocêntrica, conhecendo completamente as suas actividades nos vários níveis da nossa consciência, então teremos sem dúvida de perguntar a nós próprios se é possível essa actividade terminar. Será possível não pensar em termos de tempo, não pensar em termos do que serei, do que tenho sido, do que sou? Porque é de um tal pensamento que todo o processo da actividade egocêntrica começa; aí também se inicia a determinação de “vir a ser”, a determinação de escolher e de evitar, que são todas, um processo de tempo. E percebemos nesse processo infinitos malefícios, infelicidade, confusão, deformação, deterioração.

O processo do tempo não é revolucionário, seguramente. Neste processo não há transformação; só há continuidade e não tem fim – apenas há (re)conhecimento. Só quando temos o completo cessar do processo do tempo, da actividade do “eu”, há uma revolução, uma transformação, o nascimento do novo.

Apercebendo-nos da totalidade deste processo do “eu” na sua actividade, que pode a mente fazer? Só com a renovação, só com uma revolução – e não por meio da evolução, não através do vir a ser do “eu”, mas através do completo findar do “eu” – é que o novo existe. O processo do tempo não pode trazer o novo; o tempo não é o modo de criar. Não sei se alguns de vós tivestes um momento de criatividade. Não estou a falar de pôr alguma visão em acção; quero referir-me àquele momento de criar, quando não existe (re)conhecimento. Nesse momento, há aquele estado extraordinário no qual o “eu”, como uma actividade por meio do (re)conhecimento, cessou. Se nos apercebermos disso, veremos que nesse estado não existe um experienciador que se recorda, que traduz, que (re)conhece e depois identifica; não há nenhum processo de pensamento, o qual faz parte do tempo. Nesse estado de criação, de criatividade do novo, que é sem tempo, não existe nenhuma acção do “eu”.

A nossa questão, seguramente é: será possível a mente encontrar-se neste estado, não em raros momentos, mas – e eu preferia não usar as palavras “eternamente” ou “para sempre”, porque isso implicaria tempo – mas existir nesse estado sem relação com o tempo? Esta é seguramente uma descoberta a ser feita por cada um de nós, porque essa é a porta para o Amor; todas as outras portas são actividades do “eu”. E onde existe acção do “eu”, não há Amor. O Amor não tem nada a ver com o tempo. Não podemos “praticar” o Amor. Se o fizermos trata-se então de uma actividade autoconsciente do “eu”, que espera, por meio desse “amar” obter um resultado. O Amor não pertence ao tempo; não podemos encontrá-lo por meio de qualquer esforço consciente, por meio de qualquer disciplina, por meio da identificação – tudo isto faz parte do processo do tempo. Como a mente só conhece o processo do tempo, não é capaz de reconhecer o Amor. Só o Amor é sempre novo. Uma vez que quase todos nós têm cultivado a mente, que é resultado do tempo, não sabem o que é o Amor. Falamos sobre o Amor; dizemos que amamos as pessoas, que amamos os nossos filhos, a nossa esposa, o nosso vizinho, que amamos a natureza; mas no momento em que estamos conscientes de que amamos, a actividade egocêntrica surge; portanto deixa de ser Amor.

Este processo total da mente é para ser compreendido apenas através da relação – relação com a natureza, com as pessoas, com todas as nossas projecções, com todas as coisas à nossa volta. A vida não é nada a não ser relação. Embora possamos tentar isolar-nos da relação, não podemos existir sem ela. Mesmo que a relação seja penosa, não podemos fugir, por meio do isolamento, tornando-nos um eremita, etc. Todos estes métodos são indicações da actividade do “eu”.

Vendo todo este quadro, apercebendo-nos de todo o processo do tempo como consciência, sem qualquer escolha, sem qualquer intenção determinada, sem um objectivo, sem o desejo de qualquer resultado, constataremos que este processo de tempo chega ao fim automaticamente; de forma não induzida, não como um resultado do desejo. Só quando esse processo acaba é que há Amor, o qual é eternamente novo.

Não precisamos de procurar a Verdade. A Verdade não está longe. Ela é a verdade acerca da mente – a verdade acerca das suas actividades, de momento a momento. Se nos apercebemos da verdade deste momento-a-momento, deste processo do tempo no seu todo, esse percebimento liberta a consciência ou a energia que é inteligência, Amor. Enquanto a mente usa a consciência como actividade egocêntrica, o tempo tem de existir, com todas as suas tristezas, com todos os seus conflitos, aflições, os seus malefícios e as suas ilusões. Só quando a mente, compreendendo este processo total, cessa, é que pode surgir o Amor.
in A Primeira e Última Liberdade