sexta-feira, 2 de outubro de 2009

- O que fazer com nada?

[as expressões em itálico são genuinas de Krishnamurti]

Krishnamurti fala de uma realidade que está por baixo ou além da aparência à superfície da nossa realidade subjectiva consensual. Ele refere-se muitas vezes a essa realidade como o 'outro' ou o 'desconhecido', e algumas vezes também como verdade, amor ou liberdade. Esta verdadeira natureza das coisas - como apresentada nos seus diários publicados - é descrita como algo 'completamente diferente', como alguma coisa muito extraordinária. Apesar da sua 'outra mundanidade', Krishnamurti, contudo, mantém que todo o cérebro humano é capaz de encontrar ou de contactar esta realidade inefável - ainda que, de certa maneira, isso seja desde sempre extremamente intrigante para nós.

Quaisquer tentativas de uma clarificação mais profunda são constantemente cortadas pela insistência de Krishnamurti de que não pode haver tal coisa como 'orientação espiritual'. Krishnamurti desencoraja a inclinação natural da mente de progredir na compreensão crescente desta realidade mística. De facto, todo o grosso dos ensinamentos de Krishnamurti pode ser interpretado como uma chamada de atenção cerrada para o facto de estarmos sozinhos e de que não pode haver ajuda de ninguém nem nada nestas questões.

O que é que se verifica quando ajudamos alguém psicologicamente? A ajuda normalmente implica trazer ao de cima certas falhas no padrão de raciocínio do outro - sendo o objectivo produzir uma outra visão que se considera ser mais saudável, mais sã, mais apropriada, etc. O sucesso desta tentativa depende tanto da capacidade de comunicação daquele que ajuda como no anuir daquele que recebe.

Embora o objectivo expresso de Krishnamurti fosse tornar o homem 'absolutamente e incondicionalmente livre', contudo, ele afirmou repetidas vezes que não nos podia ajudar a tornar-nos livres. Ajuda é orientação; implica directa influência sobre o raciocínio, muitas vezes através da substituição de um conjunto de ideias por outro. 'A verdade, ou o que quiserem, não pode ser descoberta pela mente; o pensamento não pode ir atrás dela'. Muitas vezes, culpa-se Krishnamurti por falhar na sua missão, mas a substância das razões invocadas contra ele, raramente levam em conta que a sua intenção nunca foi mudar o que nós pensamos, ou mesmo como nós pensamos. Estes conceitos de 'tornar-se', 'levar a' e 'mudança' são antagónicos à sua visão de liberdade incondicional, que para ele é de uma ordem completamente diferente.

Ver que a nossa realidade subjectiva não tem relação com esta verdade, pode fazer-nos procurar uma apreciação 'objectiva' ou impessoal de 'o que é'. De facto, o estilo das discussões de Krishnamurti, o seu modo´crítico de examinar, encoraja-nos a cultivar uma mente séria e inquiridora, que, dentro do possível, esteja despida de julgamento pessoal, de opinião ou preferência. O diálogo inspirado em Krishnamurti é muitas vezes marcado pelo sentimento de que refinando as capacidades investigadoras da mente acabará por resultar na compreensão em quinta essência que abrirá a porta à verdade.
Contudo, Krishnamurti até mesmo a ideia de 'compreensão objectiva' rejeita, como tranpolim para a verdade. A compreensão requer colocar a questão em causa na engrenagem da línguagem, o exprimível. Esta circunscrição, por muito verdadeira e precisa que seja, não é a coisa descrita. É experiência comum que a satisfação que acompanha uma compreensão intelectual ou emocional não perdura.

Os ensinamentos de Krishnamurti não apontam a verdade. Antes, ele considera que qualquer coisa que seja apontada não pode ser a coisa verdadeira, mas apenas uma descrição ou testemunho da verdade. A determinação de Krishnamurti de não ser elevado ao nível de autoridade não é falsa modéstia, mas tão só uma afirmação de facto - nomeadamente, que 'a verdade' não se encontra nem no seu ensinamento nem em nenhum outro. Neste sentido, o ensinamento de Krishnamurti não é diferente de nenhum outro e deve ser compreendido por aquilo que é - uma descrição com base na linguagem.

Tomando isto em conta, a tentativa de encurralar a verdade no campo da experiência pode ser comparada à conhecida anedota sobre uma pessoa que perde as chaves à noite e começa a procurá-las junto do lampião de rua mais próximo. Contudo, apesar da natureza avassaladoramente 'desconstrutiva' dos seus ensinamentos, Krishnamurti deixa-nos uma importante chave, nomeadamente, que o desconhecido não se pode tornar conhecível.

Como lidar com esta aparente contradição no ensinamento de Krishnamurti de que a nossa consciência pode ser tocada pela verdade e ao mesmo tempo que a verdade não é conhecível, de que pode haver 'observação' sem um observador? O que achamos é que é incrivelmente difícil deixar o desconhecido desconhecido, não lhe dar atributos, não imaginar se é excitante ou temível. Ora vimos com razões quanto a por que é que o que Krishnamurti alude é impossível ou, alternativamente, pomo-nos a adivinhar ao acaso por que é que tem que ser fazível. Em ambos os casos, a nossa mente, às escuras e parte da escuridão, opera dentro dos seus próprios limites - talvez, se tivermos sorte, refreada pela lógica. Krishnamurti propõe que a nossa experiência de estarmos perdidos em contradições, sentindo que não há saída e mesmo os próprios contrários do 'conhecido' e do 'desconhecido' só são aplicáveis no contexto do pensamento e da linguagem.

'A mente não é o nosso último recurso para resolvermos os nossos problemas; pelo contrário, é quem produz os nossos problemas'. Desta forma, é preocupação central de Krishnamurti pôr a nu as artimanhas do pensamento. Para ele, o nosso dilema não advém apenas da tendência da mente de ficar prisioneira de ilusões. Até a cuidadosa percepção de 'o que é', lidando com factos em vez de permitir o raciocínio do desejo é em última instância ' agregadora'. Isto vai contra a cultura do questionar que procura deixar cair uma ilusão atrás da outra até que nada mais reste senão a verdade. Ver 'o que é' é apenas metade da história, na medida em que os factos nunca ficam sozinhos uma vez chegados ao cérebro. Mesmo no caso da relativamente não distorcida percepção de um facto, segue-se imediatamente uma avaliação que na maior parte é baseada na relação do facto com aquele que percepciona. Nós 'agregamo-nos' à verdade colando a nossa comparação pessoal e o nosso julgamento e ao fazê-lo a verdade não nos liberta, até nos sobrecarrega.

Conforme diz Krishnamurti repetidas vezes, 'isto' - significando pensamento - não pode ter nenhuma relação com 'aquilo' - significando a verdade, o desconhecido. Ainda que a verdade não possa ser afunilada com o pensamento ou a linguagem deve, por definição, conter tudo, incluindo a sua própria descrição e distorção. O que significará então estar em 'contacto' com a verdade, 'ir de encontro à verdade', como ele diz? Será tal coisa possível?

'A nossa consciência é um processo total, embora possa ter contradições em si mesma'. Nomear, interpretar, experimentar, são mais acções de fragmentos do que o movimento da totalidade da consciência. Perguntar como ultrapassar a divisão e integrar todos os fragmentos será complicar uma complicação. Nenhuma força pode fundir aquilo que não 'quer' unir-se.

Então, o que nos resta? 'Estamos a falar de uma coisa completamente diferente, não estamos? Tendo estado em todo o lado, tendo tentado tudo, a única direcção que resta será a não direcção, o sossego absoluto. 'Toma apenas consciência da completa necessidade e importância de uma mente calma'. De facto, não há mais nada que possamos fazer. Tão simples como Krishnamurti o faz parecer, vemos de facto a necessidade de uma mente calma ou aceitámos que é uma coisa por que vale a pena lutar?

A luta produz resultados que são tão voláteis e mutáveis como o processo através dos quais foi adquirida. O único factor estável e imutável e que também pode ser universalmente aplicado a toda a consciência humana é a necessidade de sossego. A necessidade de sossego põe uma enorme pressão no cérebro - pois isto é um problema diferente de qualquer outro, um problema que requer uma abordagem completamente nova.

'Sentir e nomear' é uma ocorrência simultânea para quase todos nós, quer dizer, a percepção está inextricavelmente ligada a uma espécie de narrativa interpretativa sobre os dados recebidos. Parece que esta sequência está estabelecida no nosso cérebro da mesma forma que certas operações sensoriais pre-conscientes. O manto de frases que enrolamos à volta da nossa percepção torna-se a experiência em que confiamos e que lembramos. O processo de nomeação é automatizado, inconsciente e só é reconhecido após o facto.

Qualquer espécie de resposta ou reacção ao que é visto - quer seja emocional ou racional - é um sinal infalível de que os dados sofreram processos cerebrais mais elevados envolvendo a memória e a linguagem.

Poderá realmente haver, como Krishnamurti sugere, uma lacuna entre o ver e a verbalização, entre o sentir e o nomear? Não no sentido de um intervalo de tempo, mas talvez mais no sentido de amplidão. A amplidão da atenção sem interferências.

É opinião dos escritores do editorial que Krishnamurti é um exemplo dos nossos dias do ser humano verdadeiramente livre. Estes editoriais reflectem o nosso interesse no homem mais extraordinário e no que ele tem para nos dizer. A intenção aqui não é nem representar nem re-apresentar Krishnamurti, mas simplesmente prosseguir no envolvimento com os seus trabalhos. Desnecessário será dizer que a natureza fascinante e intrincada dos escritos de Krishnamurti exige que sejam lidos cuidadosamente e em primeira-mão.

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