sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A ACTIVIDADE EGOCÊNTRICA

QUASE TODOS NÓS se apercebem de que todas as formas de persuasão, todas as espécies de estímulos nos têm sido oferecidos para resistir às actividades egocêntricas. As religiões, por meio de promessas, por meio do medo do inferno, através de todas as formas de condenação, têm tentado diferentes maneiras de dissuadir as pessoas desta constante actividade que nasce do centro do “eu”. Como estas não deram resultado, as organizações políticas chamaram isso a seu cargo. E de novo tentaram persuadir as pessoas; aí residia a última esperança da utopia.

Todas as formas de legislação, das mais limitadas às mais extremas, incluindo campos de concentração, têm sido usadas e postas em vigor contra todas as formas de resistência. Apesar disso continuamos na nossa actividade egocêntrica – a única espécie de acção que parecemos conhecer. Se pensarmos de facto sobre isto tentamos modificar-nos; se damos conta dessa actividade, tentamos mudar essa tendência, mas fundamentalmente, profundamente, não há qualquer transformação, não há um findar radical dessa actividade. As pessoas sérias apercebem-se disto e também se apercebem de que só quando cessa essa actividade do centro, e só então, pode haver felicidade.

Quase todos nós não têm dúvidas de que a actividade egocêntrica é natural e que a acção que dela resulta, e que é inevitável, só pode ser modificada, moldada e controlada. Ora, aqueles que são um pouco mais sérios, mais reflectidos, e não digo sérios – porque (pensam) que a “sinceridade” é o caminho da auto-ilusão – têm de descobrir, dando-se conta deste extraordinário processo total da actividade egocêntrica, se poderemos transcendê-la.

Para compreendermos o que é esta actividade egocêntrica, obviamente temos de a examinar, de a olhar, temos de aperceber-nos do processo total. Se formos capazes de nos apercebermos dela, há então a possibilidade de a dissolver; mas aperceber-nos dela requer uma certa compreensão, uma certa intenção de a encarar como ela é, sem interpretar, sem modificar, sem a condenar. Temos de dar-nos conta do que estamos a fazer com toda a actividade que brota desse estado egocêntrico; temos de estar conscientes dela. Uma das nossas primeiras dificuldades é que no momento em que estamos conscientes dessa actividade, queremos moldá-la, controlá-la, queremos condená-la ou modificá-la, assim raramente somos capazes de a olhar directamente. E quando alguns de nós o fazem, muito poucos são capazes de saber o que fazer.

Compreendemos que essas actividades egocêntricas são prejudiciais, destrutivas, e que todas as formas de identificação – com um país, com um grupo determinado, com um desejo particular, a busca de um resultado nesta vida ou depois da morte, a glorificação de uma ideia, seguir um exemplo, cultivar a “virtude”, etc. – é essencialmente a actividade de uma pessoa egocêntrica. Toda a nossa relação com a natureza, com as pessoas, com as ideias, são resultado dessa actividade. Sabendo isto, o que se há-de fazer? Toda essa actividade deve espontaneamente terminar – não de modo auto-imposto, não influenciado, não guiado por alguém.
Quase todos têm consciência de que esta actividade egocêntrica cria malefícios e caos, mas só estamos conscientes disso em certas direcções. Ou o observamos nos outros e ignoramos as nossas próprias actividades, ou apercebendo-nos, na relação com os outros, da nossa própria actividade egocêntrica, queremos transformá-la, queremos encontrar um substituto, queremos transcendê-la. Antes de podermos lidar com ela, precisamos de saber como nasce este processo. Para compreendermos alguma coisa temos de ser capazes de a olhar; e para a olhar precisamos de conhecer as suas próprias actividades em diferentes níveis, tanto conscientes como inconscientes – as directivas conscientes e também os movimentos egocêntricos dos nossos motivos e intenções inconscientes.

Só estou consciente desta actividade do “eu” quando estou em oposição, quando a consciência é contrariada, quando o “eu” está desejoso de alcançar um resultado. Não é assim? Ou, então, estou consciente desse centro quando o prazer chega ao fim e desejo ter mais prazer; então, há resistência e um propositado moldar da mente para um fim determinado que me dará satisfação; apercebo-me de mim mesmo e das minhas actividades quando quero “vir a ser” virtuoso conscientemente. É evidente que uma pessoa que quer tornar-se “virtuoso” conscientemente não é virtuosa. Não podemos cultivar a humildade, e essa é a beleza da humildade.

Este processo egocêntrico é resultante do tempo. Enquanto este centro de actividade existe, em qualquer direcção, consciente ou inconsciente, há o movimento do tempo (psicológico) e eu estou consciente do passado e do presente, em conjunção com o futuro. A actividade egocêntrica do “eu” é um processo de tempo. É a memória que dá continuidade à actividade do centro, que é o “eu”. Se nos observarmos a nós mesmos e nos apercebermos deste centro de actividade, veremos que ele é só o processo do tempo, da memória, de experienciar e traduzir todas as experiências de acordo com a memória; veremos também que essa actividade do “eu” é (re)conhecimento, o qual é igualmente um processo da mente.

Será que a mente será capaz de ficar liberta de tudo isto? Talvez seja possível em raros momentos; pode acontecer a quase todos nós quando realizamos um acto inconsciente, não intencional, sem um objectivo determinado. Mas será possível para a mente estar sempre completamente livre da actividade egocêntrica? É uma pergunta importante a fazer a nós mesmos porque nesse próprio perguntar, encontraremos a resposta. Se nos dermos conta do processo total desta actividade egocêntrica, conhecendo completamente as suas actividades nos vários níveis da nossa consciência, então teremos sem dúvida de perguntar a nós próprios se é possível essa actividade terminar. Será possível não pensar em termos de tempo, não pensar em termos do que serei, do que tenho sido, do que sou? Porque é de um tal pensamento que todo o processo da actividade egocêntrica começa; aí também se inicia a determinação de “vir a ser”, a determinação de escolher e de evitar, que são todas, um processo de tempo. E percebemos nesse processo infinitos malefícios, infelicidade, confusão, deformação, deterioração.

O processo do tempo não é revolucionário, seguramente. Neste processo não há transformação; só há continuidade e não tem fim – apenas há (re)conhecimento. Só quando temos o completo cessar do processo do tempo, da actividade do “eu”, há uma revolução, uma transformação, o nascimento do novo.

Apercebendo-nos da totalidade deste processo do “eu” na sua actividade, que pode a mente fazer? Só com a renovação, só com uma revolução – e não por meio da evolução, não através do vir a ser do “eu”, mas através do completo findar do “eu” – é que o novo existe. O processo do tempo não pode trazer o novo; o tempo não é o modo de criar. Não sei se alguns de vós tivestes um momento de criatividade. Não estou a falar de pôr alguma visão em acção; quero referir-me àquele momento de criar, quando não existe (re)conhecimento. Nesse momento, há aquele estado extraordinário no qual o “eu”, como uma actividade por meio do (re)conhecimento, cessou. Se nos apercebermos disso, veremos que nesse estado não existe um experienciador que se recorda, que traduz, que (re)conhece e depois identifica; não há nenhum processo de pensamento, o qual faz parte do tempo. Nesse estado de criação, de criatividade do novo, que é sem tempo, não existe nenhuma acção do “eu”.

A nossa questão, seguramente é: será possível a mente encontrar-se neste estado, não em raros momentos, mas – e eu preferia não usar as palavras “eternamente” ou “para sempre”, porque isso implicaria tempo – mas existir nesse estado sem relação com o tempo? Esta é seguramente uma descoberta a ser feita por cada um de nós, porque essa é a porta para o Amor; todas as outras portas são actividades do “eu”. E onde existe acção do “eu”, não há Amor. O Amor não tem nada a ver com o tempo. Não podemos “praticar” o Amor. Se o fizermos trata-se então de uma actividade autoconsciente do “eu”, que espera, por meio desse “amar” obter um resultado. O Amor não pertence ao tempo; não podemos encontrá-lo por meio de qualquer esforço consciente, por meio de qualquer disciplina, por meio da identificação – tudo isto faz parte do processo do tempo. Como a mente só conhece o processo do tempo, não é capaz de reconhecer o Amor. Só o Amor é sempre novo. Uma vez que quase todos nós têm cultivado a mente, que é resultado do tempo, não sabem o que é o Amor. Falamos sobre o Amor; dizemos que amamos as pessoas, que amamos os nossos filhos, a nossa esposa, o nosso vizinho, que amamos a natureza; mas no momento em que estamos conscientes de que amamos, a actividade egocêntrica surge; portanto deixa de ser Amor.

Este processo total da mente é para ser compreendido apenas através da relação – relação com a natureza, com as pessoas, com todas as nossas projecções, com todas as coisas à nossa volta. A vida não é nada a não ser relação. Embora possamos tentar isolar-nos da relação, não podemos existir sem ela. Mesmo que a relação seja penosa, não podemos fugir, por meio do isolamento, tornando-nos um eremita, etc. Todos estes métodos são indicações da actividade do “eu”.

Vendo todo este quadro, apercebendo-nos de todo o processo do tempo como consciência, sem qualquer escolha, sem qualquer intenção determinada, sem um objectivo, sem o desejo de qualquer resultado, constataremos que este processo de tempo chega ao fim automaticamente; de forma não induzida, não como um resultado do desejo. Só quando esse processo acaba é que há Amor, o qual é eternamente novo.

Não precisamos de procurar a Verdade. A Verdade não está longe. Ela é a verdade acerca da mente – a verdade acerca das suas actividades, de momento a momento. Se nos apercebemos da verdade deste momento-a-momento, deste processo do tempo no seu todo, esse percebimento liberta a consciência ou a energia que é inteligência, Amor. Enquanto a mente usa a consciência como actividade egocêntrica, o tempo tem de existir, com todas as suas tristezas, com todos os seus conflitos, aflições, os seus malefícios e as suas ilusões. Só quando a mente, compreendendo este processo total, cessa, é que pode surgir o Amor.
in A Primeira e Última Liberdade

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