Todas as formas de legislação, das mais limitadas às mais extremas, incluindo campos de concentração, têm sido usadas e postas em vigor contra todas as formas de resistência. Apesar disso continuamos na nossa actividade egocêntrica – a única espécie de acção que parecemos conhecer. Se pensarmos de facto sobre isto tentamos modificar-nos; se damos conta dessa actividade, tentamos mudar essa tendência, mas fundamentalmente, profundamente, não há qualquer transformação, não há um findar radical dessa actividade. As pessoas sérias apercebem-se disto e também se apercebem de que só quando cessa essa actividade do centro, e só então, pode haver felicidade.
Quase todos nós não têm dúvidas de que a actividade egocêntrica é natural e que a acção que dela resulta, e que é inevitável, só pode ser modificada, moldada e controlada. Ora, aqueles que são um pouco mais sérios, mais reflectidos, e não digo sérios – porque (pensam) que a “sinceridade” é o caminho da auto-ilusão – têm de descobrir, dando-se conta deste extraordinário processo total da actividade egocêntrica, se poderemos transcendê-la.
Para compreendermos o que é esta actividade egocêntrica, obviamente temos de a examinar, de a olhar, temos de aperceber-nos do processo total. Se formos capazes de nos apercebermos dela, há então a possibilidade de a dissolver; mas aperceber-nos dela requer uma certa compreensão, uma certa intenção de a encarar como ela é, sem interpretar, sem modificar, sem a condenar. Temos de dar-nos conta do que estamos a fazer com toda a actividade que brota desse estado egocêntrico; temos de estar conscientes dela. Uma das nossas primeiras dificuldades é que no momento em que estamos conscientes dessa actividade, queremos moldá-la, controlá-la, queremos condená-la ou modificá-la, assim raramente somos capazes de a olhar directamente. E quando alguns de nós o fazem, muito poucos são capazes de saber o que fazer.
Compreendemos que essas actividades egocêntricas são prejudiciais, destrutivas, e que todas as formas de identificação – com um país, com um grupo determinado, com um desejo particular, a busca de um resultado nesta vida ou depois da morte, a glorificação de uma ideia, seguir um exemplo, cultivar a “virtude”, etc. – é essencialmente a actividade de uma pessoa egocêntrica. Toda a nossa relação com a natureza, com as pessoas, com as ideias, são resultado dessa actividade. Sabendo isto, o que se há-de fazer? Toda essa actividade deve espontaneamente terminar – não de modo auto-imposto, não influenciado, não guiado por alguém.
Quase todos têm consciência de que esta actividade egocêntrica cria malefícios e caos, mas só estamos conscientes disso em certas direcções. Ou o observamos nos outros e ignoramos as nossas próprias actividades, ou apercebendo-nos, na relação com os outros, da nossa própria actividade egocêntrica, queremos transformá-la, queremos encontrar um substituto, queremos transcendê-la. Antes de podermos lidar com ela, precisamos de saber como nasce este processo. Para compreendermos alguma coisa temos de ser capazes de a olhar; e para a olhar precisamos de conhecer as suas próprias actividades em diferentes níveis, tanto conscientes como inconscientes – as directivas conscientes e também os movimentos egocêntricos dos nossos motivos e intenções inconscientes.
Só estou consciente desta actividade do “eu” quando estou em oposição, quando a consciência é contrariada, quando o “eu” está desejoso de alcançar um resultado. Não é assim? Ou, então, estou consciente desse centro quando o prazer chega ao fim e desejo ter mais prazer; então, há resistência e um propositado moldar da mente para um fim determinado que me dará satisfação; apercebo-me de mim mesmo e das minhas actividades quando quero “vir a ser” virtuoso conscientemente. É evidente que uma pessoa que quer tornar-se “virtuoso” conscientemente não é virtuosa. Não podemos cultivar a humildade, e essa é a beleza da humildade.
Este processo egocêntrico é resultante do tempo. Enquanto este centro de actividade existe, em qualquer direcção, consciente ou inconsciente, há o movimento do tempo (psicológico) e eu estou consciente do passado e do presente, em conjunção com o futuro. A actividade egocêntrica do “eu” é um processo de tempo. É a memória que dá continuidade à actividade do centro, que é o “eu”. Se nos observarmos a nós mesmos e nos apercebermos deste centro de actividade, veremos que ele é só o processo do tempo, da memória, de experienciar e traduzir todas as experiências de acordo com a memória; veremos também que essa actividade do “eu” é (re)conhecimento, o qual é igualmente um processo da mente.
Será que a mente será capaz de ficar liberta de tudo isto? Talvez seja possível em raros momentos; pode acontecer a quase todos nós quando realizamos um acto inconsciente, não intencional, sem um objectivo determinado. Mas será possível para a mente estar sempre completamente livre da actividade egocêntrica? É uma pergunta importante a fazer a nós mesmos porque nesse próprio perguntar, encontraremos a resposta. Se nos dermos conta do processo total desta actividade egocêntrica, conhecendo completamente as suas actividades nos vários níveis da nossa consciência, então teremos sem dúvida de perguntar a nós próprios se é possível essa actividade terminar. Será possível não pensar em termos de tempo, não pensar em termos do que serei, do que tenho sido, do que sou? Porque é de um tal pensamento que todo o processo da actividade egocêntrica começa; aí também se inicia a determinação de “vir a ser”, a determinação de escolher e de evitar, que são todas, um processo de tempo. E percebemos nesse processo infinitos malefícios, infelicidade, confusão, deformação, deterioração.
O processo do tempo não é revolucionário, seguramente. Neste processo não há transformação; só há continuidade e não tem fim – apenas há (re)conhecimento. Só quando temos o completo cessar do processo do tempo, da actividade do “eu”, há uma revolução, uma transformação, o nascimento do novo.
Apercebendo-nos da totalidade deste processo do “eu” na sua actividade, que pode a mente fazer? Só com a renovação, só com uma revolução – e não por meio da evolução, não através do vir a ser do “eu”, mas através do completo findar do “eu” – é que o novo existe. O processo do tempo não pode trazer o novo; o tempo não é o modo de criar. Não sei se alguns de vós tivestes um momento de criatividade. Não estou a falar de pôr alguma visão em acção; quero referir-me àquele momento de criar, quando não existe (re)conhecimento. Nesse momento, há aquele estado extraordinário no qual o “eu”, como uma actividade por meio do (re)conhecimento, cessou. Se nos apercebermos disso, veremos que nesse estado não existe um experienciador que se recorda, que traduz, que (re)conhece e depois identifica; não há nenhum processo de pensamento, o qual faz parte do tempo. Nesse estado de criação, de criatividade do novo, que é sem tempo, não existe nenhuma acção do “eu”.
A nossa questão, seguramente é: será possível a mente encontrar-se neste estado, não em raros momentos, mas – e eu preferia não usar as palavras “eternamente” ou “para sempre”, porque isso implicaria tempo – mas existir nesse estado sem relação com o tempo? Esta é seguramente uma descoberta a ser feita por cada um de nós, porque essa é a porta para o Amor; todas as outras portas são actividades do “eu”. E onde existe acção do “eu”, não há Amor. O Amor não tem nada a ver com o tempo. Não podemos “praticar” o Amor. Se o fizermos trata-se então de uma actividade autoconsciente do “eu”, que espera, por meio desse “amar” obter um resultado. O Amor não pertence ao tempo; não podemos encontrá-lo por meio de qualquer esforço consciente, por meio de qualquer disciplina, por meio da identificação – tudo isto faz parte do processo do tempo. Como a mente só conhece o processo do tempo, não é capaz de reconhecer o Amor. Só o Amor é sempre novo. Uma vez que quase todos nós têm cultivado a mente, que é resultado do tempo, não sabem o que é o Amor. Falamos sobre o Amor; dizemos que amamos as pessoas, que amamos os nossos filhos, a nossa esposa, o nosso vizinho, que amamos a natureza; mas no momento em que estamos conscientes de que amamos, a actividade egocêntrica surge; portanto deixa de ser Amor.
Este processo total da mente é para ser compreendido apenas através da relação – relação com a natureza, com as pessoas, com todas as nossas projecções, com todas as coisas à nossa volta. A vida não é nada a não ser relação. Embora possamos tentar isolar-nos da relação, não podemos existir sem ela. Mesmo que a relação seja penosa, não podemos fugir, por meio do isolamento, tornando-nos um eremita, etc. Todos estes métodos são indicações da actividade do “eu”.
Vendo todo este quadro, apercebendo-nos de todo o processo do tempo como consciência, sem qualquer escolha, sem qualquer intenção determinada, sem um objectivo, sem o desejo de qualquer resultado, constataremos que este processo de tempo chega ao fim automaticamente; de forma não induzida, não como um resultado do desejo. Só quando esse processo acaba é que há Amor, o qual é eternamente novo.
Não precisamos de procurar a Verdade. A Verdade não está longe. Ela é a verdade acerca da mente – a verdade acerca das suas actividades, de momento a momento. Se nos apercebemos da verdade deste momento-a-momento, deste processo do tempo no seu todo, esse percebimento liberta a consciência ou a energia que é inteligência, Amor. Enquanto a mente usa a consciência como actividade egocêntrica, o tempo tem de existir, com todas as suas tristezas, com todos os seus conflitos, aflições, os seus malefícios e as suas ilusões. Só quando a mente, compreendendo este processo total, cessa, é que pode surgir o Amor.
in A Primeira e Última Liberdade
Sem comentários:
Enviar um comentário